no seu ob­ser­vatório, pois foi tam­bém as­trónomo e ex­pli­cou os eclipses, pode­mos vê-​lo abor­da­do pe­lo rei Agamém­non, car­ni­ceiro rei e al­ma ob­scu­ra. Palamedes era eru­di­to, não sei se pru­dente. O cam­po de batal­ha, as di­vergên­cias das nações não o in­ter­es­savam; mas a mu­dança dos home­ns nas suas paixões talvez o con­vencesse a aprox­imar-​se e a segui-​los. Palamedes em­bar­cou para Tróia com o seu tab­uleiro de xadrez e as suas tabuin­has es­critas em car­ac­teres mis­te­riosos. De­vi­am achá-​lo louco e fútil, ou até sus­peito, os com­pan­heiros de Uliss­es, e ele próprio, Uliss­es, o en­gen­hoso. Palamedes saía de noite pe­los cam­pos, e mais de uma vez pen­etrou nas lin­has in­imi­gas, por dis­tracção e de­spre­ocu­pação de to­da a arte bíbli­ca. Uliss­es, que to­do o tem­po lev­ava em prodí­gios de man­ha e sagaci­dade, viu com in­dig­nação Palamedes, que fala­va al­to na es­curidão dos cam­pos. «Atraiçoa-​nos» -dizia. E mur­mu­ra­va dele. 

  É bem pos­sív­el que Palamedes tivesse um dia um en­con­tro com Páris, que lhe chamou mestre e lhe pediu um pe­queno fa­vor, co­mo, por ex­em­plo, dis­tribuir a água nos ban­hos ou faz­er obra de en­gen­haria nas fontes e cas­catas nos seus jardins. Em dez anos de cer­co cri­am-​se re­lações. Uliss­es não com­preen­dia is­to, e bem o demon­strou no seu re­gres­so ao lar, quan­do viu o seu próprio palá­cio cheio de pre­tendentes. «Atraiçoam-​me» -dizia. Tin­ha um génio agres­si­vo, to­davia melífluo, o que fazia com que Min­er­va o pro­tegesse; ela gosta­va dos home­ns um pouco pueris, per­mi­tia-​lh­es so­bre­viv­er nos in­fortúnios, sem con­tu­do os faz­er fe­lizes. Uliss­es ven­er­ava os deuses adu­lan­do-​os e servin­do-​se de­les. Palamedes servia os home­ns, mes­mo se os ig­no­ra­va. Não po­dia acabar bem uma história as­sim. Se eu fos­se dra­matur­go, es­crevia a vi­da de Palamedes, ou só o tem­po decor­ri­do nos cam­pos de Agamém­non. Po­bre rei sábio! Ain­da de­pois de mor­to, foi o farol in­ven­ta­do por ele, o que deu a notí­cia da que­da de Tróia e acor­dou em Mi­ce­nas a in­fame Clitemnes­tra. Nos jardins da cidade ven­ci­da crepi­tavam as fontes de Palamedes, jun­ta­mente com os in­cên­dios. 

  Volto a Náu­plia, ain­da que se­ja ter­rív­el o seu cam­in­ho de pó, as suas vin­has par­das, as eiras onde se­cam os cor­in­tos. Verei out­ra vez o forte veneziano no meio do mar, pre­to e doura­do, com um sus­sur­ro de vozes de aves da água. Sereias ou gaiv­otas, não sei. Mas volto a Náu­plia. O palá­cio de Palamedes soter­ra­do, seu muro de de­spre­zo, des­feito; seu ros­to glabro, es­que­ci­do. E os cri­ados das pen­sões descar­nadas, e onde zumbem ain­da de noite as abel­has, chamam os hós­pedes com lar­gos gestos servis. A prac­in­ha, com aque­le ar de cenário apo­dreci­do, a voz que chega da for­taleza e per­gun­ta, com en­toação cúp­ida, per­gun­ta se so­mos amer­icanos. E o bar­queiro mísero, de pé no bar­co que baloiça. «Amer­icano?»  -per­gun­ta, an­sioso, já de­spren­den­do amar­ras, soltan­do re­mos. E nós ficá­mos. Os balõez­in­hos venezianos dançavam na água. Era in­sól­ito, e triste, e ignó­bil, e não sei que mais. Não volto a Náu­plia, es­ta­mos en­ten­di­dos.

  29 Jun­ho 1967 

  Co­mo o po­eta Lentz

  Voltei às pra­ias an­tiquís­si­mas e, se pro­fanadas, ain­da tão en­cober­tas e ape­nas mo­lestadas pela mão do ven­to. Apagou-​se um tan­to a pe­ga­da do ban­hista, que não vem, porque acha frio, acha caro, acha triste. E as dunas re­fazem-​se, os jun­cos crescem; a beleza da mon­tan­ha de es­pin­haço seco con­verte-​se nu­ma beleza vir­tu­osa e re­cata­da. 

  Eu lem­bro-​me. No primeiro ano, era as­sim de solidão e fres­cu­ra. Os jo