vens padres, ain­da de bati­na pre­ta, can­tavam con­tra o ven­to can­tos gre­go­ri­anos. Era antes do diál­ogo, da es­pé­cie no­va de con­ver­sadores. A tol­erân­cia é, dis­ser­am já, a vir­tude dos cép­ti­cos. Quan­do a in­difer­ença as­sen­ta ar­ra­iais nos cam­pos to­dos do gé­ne­sis, tor­namo-​nos sor­ri­dentes co­mo um pas­tor abur­gue­sa­do. A víb­ora e o lacrau não o in­co­modam, o lobo não ui­va às suas por­tas, a peste não lhe le­va a Corisca nem a Pin­ta. É um pas­tor nem ale­gre nem pe­sa­do, prestes a jul­gar-​se bom en­tre os home­ns. Não é a glória de Javé que enche a ter­ra, mas a sat­is­fação do homem que nela se ob­sti­na. A sub­til palavra da lei «não porás o teu Deus à pro­va»  deixou de ser en­ten­di­da. Ninguém a re­con­hece mais no seu coração; e a vil lamen­tação dos que dis­cutem a fe­li­ci­dade dos ím­pios apodera-​se daque­les para quem a lu­ta não era esse pe­queno de­speito de mendi­go. 

  Es­ta lon­ga pra­ia vazia re­con­duz a gente ao pen­sa­men­to sem tem­plos e sem teo­rias. Co­mo se de no­vo a ter­ra se for­masse e, vin­do do mar, o homem prometi­do ao sofri­men­to e, no en­tan­to, por­ta­dor da boa no­va, en­raizasse hu­milde e sem de­cepção. 

  Orgul­hoso e de­cep­ciona­do o tem­po em que cla­mamos. Con­tra to­das as mon­tan­has nos ocul­ta­mos, e a pe­que­na rocha nos faz pr­ev­er a catástrofe. Nas coisas in­signif­icantes us­amos de força e no coração som­brio perde­mos a cor­agem. 

  O vas­to cam­po do mar sus­pi­ra, e, ao re­ti­rar-​se, a água deixa na areia un­hadas fun­das. Tu­do é feito para pro­duzir trans­for­mação, tu­do o que é ver­dade é uma for­ma de in­tol­erân­cia. Veio ho­je uma peix­eira vel­ha, orac­ular, ne­gra. Traz na fím­bria da sa­ia o din­heiro guarda­do. A sua lin­guagem é vi­olen­ta e poéti­ca; noutra se­ria ob­sce­na, nela é co­mo uma tran­quila fac­ul­dade de ger­ar o seu próprio id­ioma, e não o de­safio de o in­ter­pre­tar. Nen­hum teatro a po­dia adop­tar nem viv­er. Ela é tão fiel­mente es­colta­da pelas suas qual­idades, hu­milde e sem de­cepção, que a in­teligên­cia de­scriti­va não con­segue sub­metê-​la. Diz coisas tão vi­vas, que em ca­da im­agem es­tá o ri­to do nasci­men­to e da morte. Re­pro­duzir is­so é torná-​lo im­puro. 

  E é es­ta a pra­ia; e é este o tem­po. Co­mo as al­mas pe­nadas crian­do, do na­da que não sen­tem, um ol­har sem pro­fe­cias, volto aqui. Aqui in­ven­to per­plex­idades e mo­tivos. E as­sim vou viven­do, co­mo o po­eta Lentz, ex­ac­ta­mente co­mo se fos­se im­por­tante. Ex­ac­ta­mente.

  4 de Jul­ho de 1969

  A BR­US­CA

  Uma Pescaria 

  Não sei no que a Vieira se pode ter tor­na­do, mas nesse tem­po era ain­da uma aldeia de pescadores, com bur­ros à as varan­das de madeira e um mer­ca­do in­sól­ito onde duas ou três pescadeiras vel­has pon­der­avam as suas vi­das, venden­do, por des­fas­tio, uma quar­ta de pil­ri­tos e de ca­mar­in­has. As dunas er­am al­tas, com balu­artes de ca­mar­in­heiras dum verde aze­do e duro. O es­tuário do Lis abria-​se em faixas lavradas na pra­ia. Um fu­mo rosa, de evap­oração, flu­tu­ava de man­hã. Pux­avam-​se as re­des com jun­tas de bois, e ao mar fazi­am-​se os bar­cos deslizan­do em pran­chas de pin­ho. Tu­do era quase agres­si­vo na doçu­ra fria dos lu­gares e das gentes. Havia ape­nas uma pen­são po­bre, com colchões de pal­ha fer­men­ta­da; a lo­can­deira re­vis­ta­va as malas dos hós­pedes, com hon­es­ta cu­riosi­dade, e amua­va, nos seus se­ten­ta anos de meni­na, se, pre­cavi­dos, as afer­rol­havam. Acha­va-​os de­scon­fi­ados e, por su­pos­to, de más con­tas. Não sei se tin­ha razão. 

  Ninguém de juí­zo se alo­ja­va na aldeia. Um pro­fes­s