or de lín­guas cafres, que en­roupa­va o car­ro co­mo se o de­fend­esse de catar­ros ou de ol­hares sem deco­ro, in­sta­lara-​se na vi­la. Da profis­são que tin­ha, en­si­nan­do a lin­guagem dos Bal­an­tas, in­sin­uara-​se-​lhe um african­is­mo es­te­ta, pois se ap­re­sen­ta­va em es­ti­lo sa­fari, com calções cur­tos e meias de lin­ho. Creio que us­ava ca­pacete colo­nial e binócu­los de cam­pan­ha, mas não o afir­mo. Era uma dessas pes­soas que, por terem um ofí­cio raro, se fazem elas próprias ex­cên­tri­cas e um pouco mar­ci­ais. To­davia, a sen­sação de serem difer­entes tor­na-​as co­mu­nica­ti­vas e prestáveis com a in­significân­cia das de­mais es­pé­cies hu­manas. An­da­va por to­da a parte com ex­tremo à-​von­tade, trata­va por tu a co­zin­heira e ia de vez em quan­do preparar um pra­to es­pe­cial, com gin­dun­go e far­in­ha de su­ruí. A mul­her ol­ha­va para ele com com­placên­cia não isen­ta de in­qui­etação. Era um Tar­tarin do gen­tíli­co - e ela sabia-​o. 

  Mas nós, pro­pri­amente, es­tá­va­mos na pra­ia. Acor­da­va e o mar já nos chama­va do fun­do da es­ca­da, com aque­le res­pi­rar de quem tem en­fise­ma. Os ca­chopos co­mi­am pêsse­gos verdes e peixe seco. So­bre grel­has de canas, via-​se o cara­pau a cur­tir ao sol. Ou­via-​se de súbito um mo­tor de lan­cha; os ri­cos de­sci­am o rio, com a sua equipagem de de­sporto, e vin­ham ex­per­imen­tar a água do es­tuário. Re­gres­savam lo­go, levan­do às vezes com eles um ami­go abru­ta­do, de ol­hos garços e que sabia colo­car as re­des e nave­gar no rio.

  As pescarias fazi­am-​se em Setem­bro, em man­hãs em ger­al bru­mosas e fres­cas. O méto­do era sim­ples, lim­ita­va-​se a uma es­ta­ca­da que ret­inha o peixe em car­dume su­fi­ciente para uma caldeira­da. Mas às vezes era es­cas­so ou tar­dio, e trazi­am-​no de São Pe­dro de Muel e até de Buar­cos; peixe de es­ca­ma verde e ven­tre claro, ou o safio co­mo um tron­co de afo­ga­do; o tam­bo­ril e o lava­gante, tu­do com um pun­hado de gen­gi­bre e sopas de pão moreno. Às vezes chu­vis­ca­va e o rio co­bria-​se du­ma pele criva­da, dum ne­gro den­so. Os hós­pedes cor­ri­am pelas mar­gens e, de longe, aqui­lo pare­cia a ce­na de um de­sas­tre, co­mo quan­do se vi­ra um bote e não se sabe se acud­ir ou chamar. Só o pro­fes­sor de lín­guas cafres não arre­da­va pé, e con­tin­ua­va a doc­umen­tar-​se, fazen­do sug­estões ex­trema­mente racionais. Ele rep­re­sen­ta­va ali o pro­gres­so, con­tra as forças enig­máti­cas do cos­tume; cos­tume que era já um ri­to, que atin­gia o sig­nifi­ca­do du­ma leal pendên­cia com o des­ti­no e que mere­cia o re­speito mais sub­mis­so. Não era por ig­norân­cia, com certeza, que a saí­da para o mar se fazia em tão precárias condições, os bar­cos quase car­rega­dos pe­los home­ns, es­peran­do o fa­vor da on­da. E uma lon­ga man­hã se per­dia naque­le diál­ogo com a re­cusa do mar. Dez ou vinte vezes o bar­co era de­volvi­do à pra­ia; os home­ns ten­tavam de no­vo, destemi­dos e in­er­mes, com o ter­ror sagra­do nos va­lentes corações. O pro­fes­sor acha­va que um pouco de téc­ni­ca co­mo aju­da, uma en­grenagem, um na­da, po­di­am poupar aque­le es­forço e con­duzir a re­sul­ta­dos mais efi­cazes. Sur­da­mente, um áci­do sen­ti­men­to se levan­tou con­tra ele. In­cau­to, ab­sorvi­do pela sua in­teligên­cia di­vul­gado­ra, o pro­fes­sor não se aperce­bia daque­la in­gra­ta con­sciên­cia dos que chama­va seus dis­cípu­los. Re­madores de grossos braços e veias pre­tas sob a pele, moços de ca­be­los anela­dos pe­lo sal, as vel­has de saiotes fran­ja­dos na or­la pe­lo uso, ol­havam-​no fri­amente. E in­ter­rompiam o tra­bal­ho quan­do ele chega­va, fos