se o de re­men­dar re­des, fos­se o de pin­tar um ol­ho de Ar­gos na proa dum bar­co. Não er­am doi­dos nem sábios; não que­ri­am cor­romper aque­la es­tre­ita aliança com as coisas do seu mun­do, coisas a que de­vi­am tu­do o que er­am, a raça de lu­to, o pão da liber­dade. 

  Nes­sa man­hã de pescaria, o pro­fes­sor ap­re­sen­tou-​se pro­te­gi­do com um casaco de pano es­pe­cial, im­pen­etráv­el à água e ao ven­to. O ca­puz caí­do para as costas deix­ava ver que era revesti­do de ma­te­ri­al sin­téti­co, igual­mente fi­no e in­vul­neráv­el. Nesse dia ele es­ta­va par­tic­ular­mente min­ucioso nos con­sel­hos que da­va e acabrun­hante nas opiniões que emi­tia. Acha­va os méto­dos de pesca ex­traor­di­nar­ia­mente prim­itivos. Quan­do to­da a gente de­ban­da­va, co­mo gaiv­otas, abrindo grandes asas so­bre a cabeça, im­pro­visadas com lenços e toal­has, ele fi­ca­va, ti­mo­nan­do um pe­queno bar­co de bor­racha. A cor­rente ar­ras­ta­va-​o para a es­ta­ca­da, e, co­mo o ven­to era forte, ele cor­ria na água de maneira im­pres­sio­nante. O peixe mer­gul­ha­va para o fun­do. 

  -Que quer ele? -per­gun­tou um dos con­vi­da­dos, que tin­ha volta­do para trás para es­per­ar uma de­scon­heci­da com a qual pen­sa­va travar con­ver­sa. Viu na rel­va um livro, que era o diário de férias do pro­fes­sor, e abriu-​o. «Os povos fal­ha­dos são os que so­bre­vivem», leu ele. E fe­chou o livro. Nes­sa al­tura, o pro­fes­sor aprox­ima­va-​se da lin­ha de es­ta­cas, per­ante o silên­cio dos pescadores que o ol­havam da margem; o bar­co ras­gou-​se co­mo se fos­se feito de pa­pel, ao ser ati­ra­do pela cor­rente con­tra as puas de madeira. 

  -San­to nome! -disse a de­scon­heci­da. Começou a soluçar, sem com­preen­der bem o que se pas­sa­va. O con­vi­da­do afas­tou-​se dela, com uma es­pé­cie de re­pugnân­cia, pois a morte vi­olen­ta não é boa con­du­to­ra dos amantes. O pro­fes­sor foi re­ti­ra­do s re­des, jun­ta­mente com al­gum peixe miú­do e de­tri­tos. 

  -Este ano não prestou a pescaria -dis­ser­am os ri­cos. Em com­pen­sação, a caldeira­da, es­sa foi ex­ce­lente. Tin­ha roba­lo e tin­ha pesca­da e al­gum pedaço de lagos­ta semi­crua, rangente, fi­na. To­mou-​se café sob as ra­madas, que abri­gavam do ven­to; e as cri­anças cor­ri­am co­mo gatos de­baixo das mesas, en­tor­nan­do os restos de vin­ho. Não sei que de­ser­to morno era o do cam­in­ho por onde voltá­mos; mas pare­ceu-​me a na­tureza apla­ca­da, e um silên­cio no­bre e glau­co era o do mar. Do pro­fes­sor já não havia memória. As mul­heres não falaram dele no seu mesquin­ho mer­ca­do, na man­hã seguinte; falaram de uma pi­ta mor­ta por um car­ro, e dos fi­ados que as­sen­tavam no livro da lo­ja. Lo­ja so­bre­nat­ural, com maços de ve­las tat­ua­dos pelas moscas, que comér­cio de al­mas e de tem­po se fazia lá! «Não, não vi­vo dis­to; mor­ro dis­to», disse-​nos uma vez o dono, fa­tal­ista, meio le­tra­do, amar­go co­mo salmoura. Tin­ha a paixão de ne­go­ciar com a ruí­na dos out­ros, co­mo se ne­go­ci­asse com promes­sas. 

  -Não podes pa­gar, ju­ro-​te que não me podes pa­gar nun­ca mais em dias da tua vi­da. 

  -En­tão não le­vo, en­tão não co­mo. 

  -Is­so podes levar, is­so podes com­er. Mas pa­gar, não pens­es que pa­gas, porque não podes. 

  O con­tra­to era as­sim. Loucos ou sábios, co­mo o saber­emos? Con­solá­va­mos o in­qui­eto coração pou­san­do os ol­hos na lin­ha imag­inária do hor­izonte, e vivíamos. 

  CON­VER­SAÇOES COM DMITRI E OUT­RAS FAN­TASIAS

  Em­bar­que em Brin­disi 

  Es­cr­ev­er uma pági­na in­spi­ra­da não acon­tece to­dos os dias. Às vezes move­mos o pen­sa­men­to pe­los atribu­la­dos cam­in­hos do do