més­ti­co, que cor­rompem a sub­tileza e a graça; out­ras vezes po­mos na cabeça o nos­so gor­ro sábio, e re­sul­ta uma en­fadon­ha tabua­da de sen­ti­men­tos. Mas pode suced­er tam­bém que o lon­go tem­po de sub­mis­são às condições da vi­da pre­pare a rev­elação de um mo­men­to ex­cep­cional. Co­mo ho­je, em que, subita­mente, sem desígnio ce­leste, nem in­ter­pre­tação moral, nos in­screve­mos na hospedaria do des­en­con­tro, onde na­da se acha do que nos sucede, mas só a poeira dos pe­quenos in­ci­dentes hu­manos que não tiver­am história. 

  Em Brin­disi, foi em Brin­disi. Comér­cio por­tuário, silên­cio su­pli­cante no crepús­cu­lo de Brin­disi; grandes bonecas de ros­to alarve e son­so abrem os ol­hos de es­malte den­tro das suas caixas de cartão. A poeira do cais adere co­mo um trapo no ci­men­to, um bar­co parte de Brin­disi ao anoite­cer. Es­tu­dantes in­gle­ses, by­ro­ni­anos e er­rantes, sobem para a popa onde pas­sarão a noite, sob as es­tre­las. Us­am lon­gos ca­be­los co­mo pa­jens, e, porque não são be­los, is­so parece-​nos in­de­cente. Pois a ex­cen­tri­ci­dade é a beat­itude de um priv­ilé­gio, não é a mis­são dos es­píri­tos po­bres. Co­mo não são be­los os jovens in­gle­ses, com os seus lábios car­nudos e cor-​de-​rosa, com os seus caracóis de di­va, causam-​nos des­gos­to e medíocre im­pressão. Não es­tão ale­gres nem tristes partin­do de Brin­disi ao par­tir da noite; provavel­mente es­tão ape­nas cansa­dos e sem in­ter­esse pela aven­tu­ra que es­col­her­am. En­tre eles, co­mo um grande an­jo an­drógi­no e con­va­les­cente, an­da uma ra­pari­ga que bebe de­va­gar uma laran­ja­da. O ros­to fam­into e in­ex­pres­si­vo é ape­nas uma car­ac­ter­iza­ção. Não sem sur­pre­sa, ver­ifi­camos que os home­ns e as mul­heres no­vas teatral­izam a sua con­sciên­cia, não se in­for­mam dela. Um ros­to hu­mano é feito de ho­ras min­uciosas, não surge de re­pente aber­to e re­al­iza­do per­ante a façan­ha de viv­er. Jus­ta­mente em Brin­disi, que não era já a cidade de Virgílio, onde, na sua liteira, prostra­do pelas febres so­lares, ele mor­reu, havia um ros­to hu­mano. 

  Era uma mul­her já um pouco dis­traí­da da sua ju­ven­tude, mas bela. Era po­bre. A maneira co­mo ela per­gun­ta­va o preço da pas­sagem para Pa­tras ab­sorvia to­do o seu es­píri­to, da­va-​lhe uma ex­pressão quase de­mente, co­mo só os po­bres têm quan­do tratam de din­heiro. Não con­hecem a ganân­cia, não con­hecem o sig­nifi­ca­do do lu­cro; me­dem e pe­sam, com um de­sprendi­men­to inu­mano de tu­do aqui­lo que não é o preço da sua ne­ces­si­dade. Naque­la mul­her que com­pra­va um bil­hete de con­vés para Pa­tras, havia uma tal paixão de con­vencer a es­cassez a ser-​lhe bas­tante, que to­dos nós sen­ti­mos que ela era ca­paz de ig­no­rar a for­tu­na, a cidade propí­cia, os con­vites ob­scuros e leais, para só per­suadir aque­le mo­men­to a ser-​lhe útil. Não que­ria se­duzir ninguém; no en­tan­to, se­ria quase lou­váv­el que o fizesse, porque a sua beleza co­mu­ni­ca­va es­pan­to, e gratidão e tam­bém cru­el­dade. Não sabe­mos porque a beleza in­cide so­bre a jazi­da da cru­el­dade, mas as­sim é. Era ma­gra e es­cu­ra, tin­ha uns ol­hos sérios, grandes, com pes­tanas co­mo pe­nas mol­hadas. E trazia pela mão um ra­paz­in­ho feio e de­sen­gonça­do, um dess­es meni­nos ar­revesa­dos e trági­cos que não sabe­mos de que promes­sas nasce­ram, que pá­trias lh­es de­ram nome; e que rep­re­sen­tam para uma mãe for­mosa uma po­breza mais. Ela que­ria par­tir no bar­co dessa noite, e con­ta­va com sofreguidão e em­pen­ho o seu din­heiro, que era pouco e que não chega­va. Sob a buro­cráti­ca in­difer­ença do em­pre­ga­do da agê