Title: Era uma vez uma Praia Atlântica
Author: Sophia de Mello Breyner
CreationDate: Fri Jun 26 12:50:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 25 14:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Era uma vez uma Pra­ia Atlân­ti­ca

  Sophia de Mel­lo Breyn­er

  © 1996, Sophia de Mel­lo Breyn­er e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-80-4

  Lis­boa, Março de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  ERA UMA VEZ UMA PRA­IA ATLÂN­TI­CA

  Um duro Atlân­ti­co, tur­va­mente verde, com as qua­tro fileiras de on­das da maré al­ta sacud­in­do e de­sen­rolan­do as crinas de es­puma. Ou, às ho­ras de maré vasa, o ex­táti­co mar trans­par­ente, de­ti­do en­tre roche­dos es­curos onde as ané­monas er­am co­mo pupi­las deslum­bradas e vi­dentes.

  Dos ban­hos nas man­hãs de maré al­ta saíamos en­ton­te­ci­dos e um tan­to ex­al­ta­dos. Seguíamos com atenção o in­char de ca­da on­da, pois éramos ar­ras­ta­dos à ro­la se não mer­gul­há­va­mos a tem­po. O es­pra­iar da água en­rola­va à vol­ta das nos­sas per­nas lon­gas al­gas verdes, achatadas co­mo fi­tas. A reben­tação cri­ava em nos­sa vol­ta um ha­lo de bru­ma e tu­mul­to e habitá­va­mos o in­te­ri­or dos pul­mões da mare­sia. 

  Atrás de nós, e um pas­so atrás da or­la da va­ga, e re­cuan­do um pas­so quan­do a va­ga subia, es­ta­va um po­vo de mes­tras, cri­adas e fa­mil­iares que nos fazi­am sinais que não víamos e nos gri­tavam or­dens e avi­sos que não ou­víamos. 

  Um pouco à frente, o ban­heiro Manuel Bote, vesti­do, com as calças ar­regaçadas, meti­do na água até aos joel­hos mas mol­ha­do até à cin­tu­ra vi­gia­va a posição de ca­da ban­hista e al­gu­mas vezes nos ia bus­car à bo­ca da on­da. 

  Nesse tem­po da min­ha in­fân­cia ele era já uma figu­ra ven­eráv­el.

  A sua bar­ba começara já a em­bran­que­cer, a sua valen­tia e a força da sua braça­da per­ten­ci­am já ao mun­do das histórias que se con­tam co­mo lendas. Sabíamos que, na sua pe­que­na casa ao. pé da pra­ia, as pare­des es­tavam cober­tas de diplo­mas e medal­has que lem­bravam as vi­das que tin­ha sal­vo. E nós próprios, no mar do equinó­cio, o tín­hamos vis­to fu­rar as qua­tro ter­ríveis fileiras de on­das para puxar para ter­ra o nadador in­cau­to. 

  Mes­mo en­vel­he­ci­do era um homem be­lo, al­to, de om­bros lar­gos e costas di­re­itas. Tin­ha os ol­hos de um cinzen­to neb­uloso co­mo o mar de In­ver­no mas, às vezes, um sor­riso os azula­va e en­tão pare­ci­am muito claros na pele queima­da. A sua es­tatu­ra, o seu porte de mas­tro, as suas veias grossas co­mo ca­bos e os anéis da bar­ba e do ca­be­lo, a au­ra marí­ti­ma que o rodea­va, davam-​lhe um cer­to ar de mon­umen­to manueli­no mas, si­mul­tane­amente, tin­ha a beleza tosca e to­cante de um bar­co de pescadores, con­struí­do com as mãos, pin­ta­do com as mãos e deslava­do por muito mar e muitos sóis. 

  Era ele que mar­ca­va o fim do ban­ho. 

  Do Atlân­ti­co frio mes­mo quan­do ag­ita­do saíamos quase sem­pre gela­dos e fe­lizes, a bater os dentes, com a pon­ta dos de­dos bran­ca, os beiços rox­os. 

  En­tão cor­ríamos para as bar­ra­cas de madeira onde nos vestíamos e que fi­cavam à en­tra­da da pra­ia em duas fi­las, antes das bar­ra­cas de lona e dos tol­dos. 

  Es­tas bar­ra­cas de madeira er­am es­tre­itas e al­tas, pin­tadas de verde-​es­curo e tin­ham na por­ta um ócu­lo re­don­do. Den­tro, ao fun­do, havia um ban­co, de ca­da la­do cabides, no chão uma es­teira. Jun­to da por­ta es­ta­va sem­pre uma cel­ha de madeira cheia de água do mar onde, antes de en­trar, lavá­va­mos os pés para tirar a areia. Havia em tu­do is­to um con­for­to rudi­men­tar e fres­co, um cheiro 