a sal, a er­vas e a madeira e uma beleza fei­ta de ain­da não haver plás­ti­co e de o con­trapla­ca­do, o cro­ma­do e out­ras in­venções serem reser­vadas para usos difer­entes. 

  En­quan­to éramos mais pe­quenos, mes­tras, cri­adas ou fa­mil­iares en­travam connosco para a bar­ra­ca para nos es­fre­garem bem o ca­be­lo e as costas e nos aju­darem a ve­stir. O es­paço era aper­ta­do, a luz que en­tra­va pe­lo ócu­lo pou­ca, o ar um tan­to húmi­do. Por is­so as mes­tras, apres­sadas, davam-​nos en­quan­to nos ves­ti­am al­guns ar­re­pelões. As mães mul­ti­pli­cavam ral­hos. As cri­adas con­tavam histórias. 

  Mas, às vezes, era a Ana Bote que nos vin­ha ve­stir. Es­fre­ga­va com vig­or o ca­be­lo e não podíamos ficar com a cabeça mol­ha­da. Limpa­va os pés de­do por de­do e con­ta­va que não podíamos ficar com os pés frios. De­pois -ó mar­avil­ha -tira­va do re­gaço plan­tas da sua hor­ta: man­jer­icão, hort­elã, al­faze­ma, ale­crim, que nos es­fre­ga­va na tes­ta, no pescoço e nos braços. Para nos dar saúde e fe­li­ci­dade, se­gun­do dizia. E os per­fumes mis­tu­ra­dos de al­faze­ma, mare­sia, hort­elã e ale­crim er­am o próprio aro­ma e in­cen­so da fe­li­ci­dade. 

  A Ana não con­ta­va histórias de prince­sas e fadas: con­ta­va usos e cos­tumes, nomes de pes­soas, coisas e lu­gares. Por ela eu sabia das pro­cis­sões, da afli­ta dos pescadores. Por ela eu sabia onde mora­va a Rosa aguadeira, e que coisas se po­di­am com­prar na feira de Es­pin­ho, e qual a maneira de atar o lenço da cabeça à mo­da das mul­heres daque­les sí­tios. Mas nas suas con­ver­sas comi­go o tema preferi­do da Ana Bote era a in­fân­cia da min­ha mãe e tias e tios. 

  Porque ela con­hecia to­das as famílias de to­das as class­es, sabia os nomes e os par­entescos, e as casas e as quin­tas e quin­tais. 

  Pois já tin­ha pas­sa­do o meio da sua vi­da e tin­ha vis­to muitas coisas, lem­bra­va-​se de muitas coisas. Mas, em­bo­ra já não fos­se no­va há muito tem­po, era uma mul­her ac­ti­va, rison­ha e ale­gre co­mo se a vi­da re­começasse limpa e lisa to­dos os dias. 

  Era, con­forme se dizia, grande tra­bal­hadeira. A limpeza metic­ulosa e fres­ca das bar­ra­cas e a água con­tin­ua­mente ren­ova­da das cel­has er­am obra sua. As­sim co­mo os can­teiros ar­ru­ma­dos do seu quin­tal e da hor­ta que com ele con­fi­na­va. 

  Em­bo­ra os cos­tumes es­tivessem já bem mu­da­dos ela con­tin­ua­va vesti­da à maneira anti­ga, com a sa­ia de ro­da bem en­faix­ada, com o lenço ata­do a pre­ceito, com brin­cos de oiro tilin­tan­do jun­to à cara e com o grosso cordão de oiro de muitas voltas e muitas medal­has bril­han­do e os­cilan­do ao sa­bor de ca­da gesto so­bre o peito. 

  Brin­cos e medal­has lhe de­ra o mari­do mas o cordão -me disse -o her­dara da avó que era lavradeira para os la­dos de S. Clemente. 

  Pois ela vivia com to­do o seu pas­sa­do, que não lhe era morte nem saudade mas es­paço e pre­sença co­mo uma grande pin­tu­ra an­ima­da, vi­va e in­spi­rado­ra. 

  E si­mul­tane­amente vivia to­do o seu pre­sente. No seu sor­riso havia sem­pre um fun­do de sur­pre­sa e as coisas co­muns que eu lhe con­ta­va er­am acol­hi­das com es­pan­to e en­tu­si­as­mo co­mo se o mun­do to­dos os dias, através de gestos, ob­jec­tos, en­con­tros, con­fir­masse a sua pos­itivi­dade fun­da­men­tal. Se eu dizia que, tin­ha col­hi­do amoras nas sil­vas dos pin­hais, ou que tin­ha vis­to um cão cas­tan­ho, pe­queni­no, ou que a min­ha co­zin­heira tin­ha com­pra­do mex­il­hão para o al­moço, es­tas notí­cias er­am acol­hi­das com jú­bi­lo e alvoroço co­mo se fos­sem acon­tec­imen­tos rev­eladores e sur­preen­dentes, co­mo se o fac­to de haver amoras nos pin­hais, ca­chor