​se ficar cal­ada: a história não a es­pan­ta­va, já es­ta­va à es­pera de tu­do. E, ao cabo de um cur­to silên­cio re­spon­deu: 

  -Não recor­ro. 

  -Mas a min­ha tia sem­pre disse que que­ria a justiça e ago­ra não quer justiça para si? 

  Ira­da Ana levan­tou-​se: 

  -Quero justiça mas só à min­ha maneira. Não quero mais na­da com o tri­bunal, já disse. Não me ar­reliem mais. Eu ten­ho razão, não pre­ciso que m'a dêem. E deix­em lá ir a hor­ta. Não me falem mais nis­so.

  No dia seguinte pela tardinha, quan­do Cecília par­tiu para a fonte, Ana foi soz­in­ha a casa de Tomé e pediu-​lhe que chamasse o João que mora­va ao la­do. Mal chegaram os dois, ela man­dou-​lh­es que se sen­tassem em sua frente e disse: 

  -Vim cá agrade­cer-​lh­es terem ido de tão boa von­tade ao tri­bunal de­fend­er-​me. Peço de­scul­pa de os ter meti­do nestes tra­bal­hos. Dis­ser­am-​me que tin­ham fi­ca­do os dois afli­tos com me­do de não terem fal­ado bem. Mas não se afli­jam. O ad­vo­ga­do disse-​me que falaram bem. Al­iás se eu perder a questão não é por causa dis­so. É por causa de out­ras com­pli­cações que sur­gi­ram e que o ad­vo­ga­do me ex­pli­cou mas que eu não sei ex­plicar. Sou muito tapa­da para es­sas coisas. Mas se perder, per­di e não recor­ro. Não quero mais na­da com tri­bunais. Ten­ho razão e por is­so não pre­ciso que ma dêem. E já não se me dói na­da da hor­ta. Aman­há-​la cansa­va-​me e já me cus­ta an­dar cur­va­da so­bre a ter­ra, faz-​me ton­turas. Ago­ra o que me dá ale­gria é sen­tar-​me nos de­graus da min­ha por­ta a ol­har a maré cheia ou cam­in­har rente ao mar e ver os roche­dos da maré vaza. E dá-​me ale­gria saber que ten­ho bons ami­gos, leais e ver­dadeiros, co­mo vocês os dois. Temos mui­ta sorte de viv­er nu­ma ter­ra tão boni­ta. Aqui cheira a mar e a fru­ta. Aqui tu­do é lin­do e per­fuma­do. São lin­das as nos­sas casas, tão bran­cas e bem ca­iadas. E são lin­das as casas maiores dos mais ri­cos. A min­ha preferi­da é a casa da sen­ho­ra D. Luísa com aque­la varan­da vi­ra­da para o mar e aque­la es­ca­da de pe­dra e grades feitas de ri­pas de madeira cruzadas e pin­tadas de verde. Um dia disse-​lhe: «Ai sen­ho­ra D. Luísa, é tão boni­ta a sua varan­da, é mes­mo boa para ver o pôr do Sol. É pe­na a sen­ho­ra não pas­sar cá mais tem­po» e ela re­spon­deu: «Ol­ha Ana, quan­do eu não es­tiv­er cá vem tu por mim, sen­ta-​te na min­ha varan­da a ver o pôr do Sol -a casa fi­ca fecha­da mas a can­cela da varan­da fi­ca só no trin­co». E as­sim, ago­ra, mui­ta vez me sen­to ali, é mais al­to, vê-​se mel­hor. Mas tam­bém é lin­do o pin­hal da Igre­ja, e o jardim da con­dessa, e tan­to alpen­dre, e tan­ta varan­da e varand­in­ha que aqui há. O sen­hor ar­qui­tec­to cos­tu­ma diz­er: «Is­to é uma ter­ra lin­da porque não há aqui nen­hu­ma coisa feia». Sabem vocês, só viv­er aqui já é uma fe­li­ci­dade. Para que quero eu a hor­ta se ten­ho is­to tu­do? 

  E à me­di­da que fala­va e a si própria se con­ven­cia com a justeza das suas palavras, Ana foi ven­do que tam­bém con­ven­cia Tomé e João e que as caras de­les se iam de­sanu­vian­do. Alivi­ada de os sen­tir alivi­ados de­spediu-​se de­les com muitos abraços e palavras ale­gres. 

  De­pois os meses foram cor­ren­do até que saiu a sen­tença. Ana tin­ha per­di­do a questão mas, co­mo prom­etera, não recor­reu. 

  Pare­cia im­pávi­da e ninguém lhe viu lá­gri­ma nem cara en­som­bra­da nem lhe ou­viu lamen­to. Mas en­tre a fa­ca vi­va do anti­go des­gos­to, a con­fusa de­silusão per­ante a des­or­dem do mun­do, a des­ocu­pação e os ven­tos uiv­antes do In­ver­no pouco a pouco re­começou a be­ber. 

  Viveu ain­da mais al­guns anos, trôpe­ga, q