ros cas­tan­hos nas ruas e mex­il­hão nas canas­tras das peix­eiras fos­se mo­ti­vo de in­es­gotáv­el re­goz­ijo e de es­pan­to in­es­gotáv­el. Eu era min­uciosa­mente in­ter­ro­ga­da so­bre o lu­gar onde en­con­trara amoras, so­bre o seu amadurec­imen­to, so­bre a raça do cão, so­bre o taman­ho do mex­il­hão e so­bre se iria ser co­zin­hado em ar­roz ou de caldeira­da. 

  É pos­sív­el que gostasse tan­to de con­ver­sar com cri­anças porque não tin­ha fil­hos. Mas em sua casa vivia uma so­brin­ha ór­fã, fil­ha de um ir­mão do mari­do, a Cecília, que era a ter­ceira mar­avil­ha da família. 

  Quan­do eu tin­ha cin­co anos ela teria catorze ou quinze e era grande para a idade e forte e bela e ao lon­go dos anos a sua beleza foi crescen­do.

  A bran­cu­ra dos seus dentes via-​se de longe. Ao con­trário do Manuel e da Ana Bote que tin­ham os ol­hos claros, era more­na e os seus ol­hos es­curos tal­ha­dos em amên­doa vi­am-​se de la­do, co­mo os ol­hos dos bar­cos, na cara oval, um pouco com­pri­da, uma cara clás­si­ca com to­dos os traços acen­tu­ados e ligeira­mente grandes. Era al­iás al­ta e ri­ja, não gor­da mas um tan­to en­tron­ca­da. Di­re­ita e forte car­rega­va enormes cân­taros de água que to­das as tardes ia bus­car ao fontanário que fi­ca do out­ro la­do da lin­ha. Havia nela um bril­ho de saúde que luzia na clar­idade da pra­ia. 

  A sua es­tatu­ra e ri­jeza cer­ta­mente as her­dara da família pa­ter­na. Mas fo­ra com a tia que ela apren­dera a ale­gria.

  Pois, co­mo a Ana Bote, a Cecília pare­cia viv­er em con­tín­uo re­goz­ijo, um re­goz­ijo que para mim se con­fun­dia com a grande fes­ta do Verão. Acol­hia-​nos de longe com grandes saudações, ria in­ces­san­te­mente mostran­do a bran­cu­ra lu­mi­nosa dos dentes, co­mo a tia lava­va com grandes baldes de água do mar as bar­ra­cas de madeira, do­bra­va e ar­reca­da­va a lona dos tol­dos que to­dos os dias er­am ar­ma­dos e de­sar­ma­dos pe­lo Manuel Bote, da­do que era tare­fa mas­culi­na, exigin­do al­tura, força e ciên­cia de com­pli­ca­dos nós.

  Quan­do me con­sid­er­ava su­fi­cien­te­mente enx­uta, a Ana Bote tira­va a min­ha roupa dos cabides de fer­ro que, al­tos de­mais, es­tavam fo­ra do meu al­cance. E eu en­fi­ava o vesti­do de lin­ho amare­lo e vi­ra­va as costas para que ela me abotoasse os dois botões de asel­ha, e vi­ra­va-​me de­pois de frente para que ela me pen­te­asse, al­isan­do bem a fran­ja. 

  De­pois abria a por­ta e cá fo­ra da­va-​me um pé de hort­elã, um ramo de ale­crim, um ramo de al­faze­ma e uma fol­ha de limoeiro:

  -Adeus, Ana, obri­ga­da. 

  -Adeus, min­ha lin­da, até aman­hã. 

  Eu cor­ria para o tol­do onde es­ta­va a min­ha mãe e es­ten­dia-​lhe as mãos para ela cheirar. 

  -Cheire, cheire, mãez­in­ha -pe­dia eu. 

  -Que bem que cheira a min­ha fil­ha! -ex­cla­ma­va a min­ha mãe. 

  -São er­vas do jardim da Ana -re­spon­dia eu. 

  Eu es­ta­va sen­ta­da à som­bra do tol­do ao la­do da min­ha mãe. As on­das in­chavam o seu dor­so e desabavam so­bre a pra­ia. A areia mol­ha­da luzia. A vi­da era ce­leste­mente ter­restre. Onde es­tá­va­mos, cheira­va a mare­sia e a jardim. O per­fume da fe­li­ci­dade in­va­dia o mun­do. 

  Foi as­sim du­rante mais al­guns Verões.

  Mes­mo quan­do de­pois dos seis anos pas­sei a ve­stir-​me soz­in­ha, a Ana Bote vin­ha à por­ta da min­ha bar­ra­ca e, através do ócu­lo, da­va-​me um ramo de hort­elã e ale­crim. Dizia: 

  -Es­fregue-​os bem no pescoço, nas mãos e na tes­ta. Dá saúde e fe­li­ci­dade. 

  De­pois, teria eu en­tão onze ou doze anos, hou­ve um In­ver­no em que o Manuel Bote mor­reu. 

  No Verão seguinte não en­con­trá­mos a Ana jun­to das bar­ra­cas d