e madeira. Havia um no­vo casal de ban­heiros, al­iás par­entes do fale­ci­do Manuel Bote. Chamavam-​se Manuel e Maria, er­am novos e be­los co­mo se naque­la ter­ra para chegar a ban­heiro fos­se pre­ciso pas­sar por um con­cur­so de beleza. Tin­ham am­bos o ca­be­lo es­curo e os ol­hos in­ten­sa­mente azuis e er­am pare­ci­dos co­mo ir­mãos, de tal for­ma que nos seus três fil­hos pe­quenos era im­pos­sív­el dis­tin­guir onde es­ta­va a pare­cença com o pai, onde a pare­cença com a mãe, pois am­bas se con­fun­di­am. Mas o Manei e a Maria, ape­sar da ju­ven­tude e beleza, não tin­ham a ale­gria nem o ân­imo da Ana Bote. 

  À saí­da da pra­ia, nu­ma rua, en­con­trá­mos a Cecília com o cân­taro à cabeça. Es­ta­va to­da vesti­da de pre­to e en­tre tan­to pre­to o bran­co dos seus dentes luzia ain­da mais. Falou à min­ha mãe com a sim­pa­tia com­pas­sa­da de quem es­tá de lu­to, falou com ar grave da doença e da morte do tio. Mas a mim falou-​me com os risos e alvoroços do cos­tume, ex­ta­siou-​se so­bre o meu cresci­men­to, per­gun­tou por to­da a família, ir­mãos, pri­mos, cri­ados. 

  -Co­mo es­tá a tua tia? -in­ter­ro­gou a min­ha mãe. 

  -Ai, mal. Mal e mal. Mes­mo mal -sus­pirou a Cecília. 

  -Coita­da -lamen­tou a min­ha mãe. 

  -Não come, não fala, não sai de casa, não quer saber de na­da. Nem o lenço da cabeça ata di­re­ito. Quem havia de diz­er que uma mul­her co­mo a min­ha tia ia que­brar des­ta maneira? Mas que­brou. 

  -Diz-​lhe que aman­hã a vou ver -disse a min­ha mãe. 

  Na tarde do dia seguinte, co­mo com­bi­na­do, a min­ha mãe foi vis­itar a Ana Bote e lev­ou-​me com ela. 

  En­con­trá­mos uma mul­her tão difer­ente que era co­mo se tivesse mu­da­do não de situ­ação mas de iden­ti­dade. Uma mul­her in­erte, dis­traí­da de nós e das coisas. Tin­ha en­vel­he­ci­do e ema­gre­ci­do e o azul dos seus ol­hos es­ta­va deslava­do e um tan­to cego. Falou ape­nas da morte do mari­do, mas falou co­mo se es­tivesse soz­in­ha e falasse con­si­go própria para re­ex­am­inar e en­ten­der o que tin­ha acon­te­ci­do. Ela antes tão aten­ta a tu­do ago­ra não aten­dia a mais na­da. Dizia: 

  -Eu es­ta­va ali de pé. De re­pente, caiu aqui ao com­pri­do. Foi um es­tron­do. Foi co­mo se reben­tasse o mun­do. 

  Quan­do saí­mos, per­gun­tei à min­ha mãe: 

  -E ago­ra? 

  -Vai-​se ha­bit­uar. Co­mo to­da a gente. 

  Mas não se habitu­ou. O seu mun­do era uno e não aceita­va uma fal­ha. O es­cân­da­lo tin­ha in­va­di­do o re­al até seus úl­ti­mos con­fins. A pra­ia, a luz, o per­fume da hort­elã tin­ham per­di­do o sen­ti­do, já não lhe diziam re­speito. 

  No en­tan­to, pas­sa­do um ano so­bre a sua vi­uvez, du­rante al­gum tem­po pare­ceu re­com­por-​se. Ia e vin­ha, trata­va da sua casa, trata­va de um ban­do de gal­in­has e do jardim e da hor­ta. Já não era a ban­heira e de­via ter muito tem­po livre. Às vezes em Agos­to, quan­do havia mais ban­his­tas, apare­cia de man­hã na pra­ia para aju­dar os so­brin­hos. Mas era ev­idente que naqui­lo que fazia já não pun­ha es­mero, nem gos­to, nem jo­go. Antes no seu tra­bal­ho ex­is­ti­ra um el­emen­to lúdi­co, uma parte de teatro e liber­dade. Ago­ra havia ape­nas tare­fa, obri­gação. 

  Vin­ha à pra­ia tra­bal­har nesse Agos­to não porque pre­cisas­se de gan­har a vi­da, pois além da pen­são do mari­do tin­ha al­guns haveres her­da­dos dos pais lavradores -e a Cecília dizia sem­pre: «De din­heiro a min­ha tia es­tá bem» -vin­ha mas pe­lo de­ver sagra­do de aju­dar a família. 

  Enchia e de­spe­ja­va as cel­has de madeira e limpa­va as bar­ra­cas co­mo antes, mas sem con­ver­sa e sem risos. Não havia nela pro­pri­amente tris­teza que se visse mas sim