 uma pe­sa­da in­difer­ença. 

  Primeiro ela tin­ha si­do o ac­tor que vivera a peça, ago­ra era ape­nas a em­pre­ga­da do teatro. 

  E as­sim foi por vários anos.

  Porém, era visív­el que esse puro du­rar lhe era in­abitáv­el. Por is­so em cer­to In­ver­no começou a con­star que a Ana be­bia. 

  Ao princí­pio, be­bia de longe a longe. Er­am grandes bebe­deiras de caixão à co­va e per­dia-​se cam­bale­an­do nas pra­ias de­ser­tas de Dezem­bro. A so­brin­ha par­tia em sua bus­ca e lu­ta­va longa­mente com ela até con­seguir ar­rastá-​la para casa. E era coisa ter­rív­el e fan­tás­ti­ca ver no es­curo da noite as duas mul­heres gri­tan­do e ges­tic­ulan­do ao lon­go da reben­tação e do clam­or do mar. 

  -Mas que quer a tia do mar? -per­gun­tara-​lhe a Cecília no meio da noite, ten­tan­do afastá-​la da or­la da va­ga onde cam­in­ha­va en­sopan­do a sa­ia pre­ta. 

  -Vim faz­er pran­to com ele para não gri­tar soz­in­ha. 

  Só a saúde, a força e a ale­gria da Cecília con­seguiam aguen­tar o mau vin­ho da Ana. Quem no dia seguinte a via com o cân­taro à cabeça e o ros­to liso, clás­si­co e trigueiro, rosa­do pela man­hã fria, nun­ca adi­vin­haria o com­bate com as fúrias, lou­curas e tem­po­rais da noite. 

  De­pois o be­ber da Ana tornou-​se quo­tid­iano mas mais come­di­do. Começa­va a be­ber ao fim da tarde co­mo um in­glês metódi­co e no fim do jan­tar, be­bido o úl­ti­mo copo, titubea­va um pouco, deita­va-​se e dormia. 

  Por es­sa época, recol­heu um ca­chor­ro va­dio, em cu­jo pê­lo en­car­aco­la­do e bran­co as plan­tas da duna se pren­di­am e que pare­cia um pouco um carneiro. Um cão de que só ela gosta­va e de que nun­ca se sep­ar­ava. Com ele a víamos pas­sar pela estra­da da pra­ia ou pelas dunas, trôpe­ga, apoia­da num pau, fa­lan­do soz­in­ha, ges­tic­ulan­do. 

  Surgiu en­tão uma questão de par­til­has. Um par­ente do seu mari­do, o pri­mo Abílio, recla­ma­ra a posse da sua hor­ta, do quadra­do de ter­ra jun­to ao seu quin­tal, que há mais de trin­ta anos ela plan­ta­va, cava­va e re­ga­va com es­mero e sabedo­ria. 

  Ana, cer­ta da sua razão e legí­ti­mo di­re­ito, ou­viu com es­pan­to as argú­cias do ad­vo­ga­do da parte con­trária e pas­mou com fúria per­ante as malí­cias da lei e a malí­cia dos par­entes. De­ba­teu-​se co­mo pôde, ar­ran­jou um ad­vo­ga­do (no qual nun­ca con­fiou muito) e so­bre­tu­do recor­reu a out­ras malí­cias mais in­génuas e pop­ulares. Em car­tas apli­cada­mente di­tadas a Cecília di­ri­gia-​se às pes­soas mais im­por­tantes que con­hecia pedin­do o seu teste­munho, in­fluên­cias, em­pen­hos para os juízes. 

  Tu­do is­to lhe enchia os dias fornecen­do in­es­gotáv­el as­sun­to para as con­ver­sas do serão com a so­brin­ha e obri­gan­do-​a a múlti­plas diligên­cias, fre­quentes vis­itas às suas teste­munhas e idas se­manais à cidade ao con­sultório do ad­vo­ga­do. Havia ago­ra mes­mo nos seus dias uma cer­ta azáfama, uma cer­ta febre.

  -Afi­nal -co­men­ta­va Cecília -a questão tem feito bem à min­ha tia. Até parece que acor­dou, an­da mais an­ima­da. 

  De fac­to Ana, em­bren­ha­da em suas no­vas an­daças, quase deixara de be­ber, re­tomara na lu­ta um pouco da sua anti­ga paixão pelas coisas e re­começara a cuidar da sua aparên­cia. 

  -Em tem­pos eu tin­ha amor à hor­ta -dizia. -Mas is­so foi dantes. Ago­ra não ten­ho apego a na­da. Se me tivessem pe­di­do a hor­ta até a tin­ha da­do, pois sem­pre são gente da família. Mas virem com leis e com men­ti­ras e jul­gar­em que me ca­lo porque es­tou vel­ha e doente, is­so não, a tan­to não me aco­var­do. Mes­mo vel­ha, doente e sem amor a na­da, quero o que é di­re­ito. 

  Al­iás co­mo bem se sabi