a Ana tin­ha razão. Con­fian­do na sua razão e con­ser­van­do do seu amor à vi­da uma cer­ta fé na justiça ima­nente, em da­da man­hã de Março, vesti­da com a sua mel­hor roupa e com o mel­hor lenço de se­da ata­do a pre­ceito, acom­pan­ha­da por Cecília, par­tiu para o tri­bunal da cidade próx­ima. Es­ta­va um frio fi­no e arisco que lh­es deu ân­imo. 

  Mas o jul­ga­men­to es­ta­va atrasa­do con­forme lh­es ex­pli­cou o ad­vo­ga­do que, de­pois de as in­sta­lar num ban­co do corre­dor que da­va para o pá­tio do tri­bunal, se afas­tou, re­comen­dan­do que es­perassem ali sen­tadas, pois a au­diên­cia ain­da de­mor­aria mais de uma ho­ra e a seu tem­po ele as viria ou man­daria chamar. E acres­cen­tou: 

  -Se pre­cis­arem de al­gu­ma coisa es­tou ali na sala dos ad­vo­ga­dos, do out­ro la­do do pá­tio, na úl­ti­ma por­ta à di­re­ita. 

  O ad­vo­ga­do afas­tou-​se e elas, sem pres­sa nem im­paciên­cia, dis­puser­am-​se a es­per­ar o que fos­se pre­ciso, ape­nas um pouco in­tim­idadas pe­los mis­térios do lu­gar.

  Primeiro dis­traiu-​as o número e o vai e vem das pes­soas, as pas­sagens azafamadas dos con­tín­uos e ofi­ci­ais de diligên­cias, as pas­sagens deco­rosas de ad­vo­ga­dos que lh­es pare­ce­ram im­po­nentes nas suas to­gas pre­tas. E da pon­ta do corre­dor onde es­tavam sen­tadas ad­mi­raram e co­men­taram as di­visões es­paçosas, a al­tura do tec­to, mas ad­mi­raram so­bre­tu­do a largueza do pá­tio e as col­unas de pe­dra que nos qua­tro can­tos sustin­ham a ga­le­ria do an­dar de cima. 

  -Is­to -co­men­tou Ana -é obra anti­ga e bem con­struí­da. Mas é um bo­ca­do triste. E es­tá bas­tante desleix­ado. 

  -Pois es­tá -con­cor­dou Cecília. -Lá em casa não se vê tan­to pa­pel no chão. E ali na parede que grande nó­doa de hu­mi­dade! E o chão tão es­curo! A nos­sa casa é pe­que­na, mas não há hu­mi­dade nas pare­des e o chão es­tá bem var­ri­do e bem es­fre­ga­do. Cheira a limpo.

  -Mas ó ra­pari­ga nós tam­bém não temos tan­tas vis­itas -riu-​se Ana. -E não tra­bal­hamos com pa­pel p'ra aqui pa­pel p'ra acolá e não há na­da que faça tan­to lixo co­mo o pa­pel! Sabes, is­to aqui não me agra­da. Há qual­quer coisa es­quisi­ta. 

  -É es­quisi­to é -con­cor­dou Cecília. 

  E ficaram as duas cal­adas. 

  Ana, em­bo­ra dis­so não tivesse con­sciên­cia, acred­ita­va firme­mente que o mun­do se com­preende com os ol­hos. 

  Por is­so ol­ha­va avi­da­mente aque­le mun­do de es­tran­hos, que não era o seu, para ver se en­ten­dia em que é que es­ta­va meti­da. 

  O seu ol­har ia de ros­to em ros­to: ros­tos cir­cun­spec­tos, ros­tos baços, ros­tos son­sos com a man­ha a rir em ca­da ru­ga, caras de gente im­por­tante ol­han­do de al­to, ros­to de­sen­volto de quem sabe nave­gar naque­las águas, caras mor­tiças co­mo ve­las apa­gadas. E aqui e além ros­to afli­to, soz­in­ho e hes­itante de um homem ou de uma mul­her que pare­ci­am per­di­dos no meio daqui­lo tu­do. Mas o que mais as­sus­tou Ana foram os inu­meráveis ros­tos en­viesa­dos e ob­se­quiosos, un­ta­dos de man­ha e son­sa es­perteza. 

  -Ó Cecília já viste que aqui quasi to­da a gente se parece com o pri­mo Abílio! 

  -Pois é -disse Cecília es­tar­reci­da. 

  -Com ele e com o com­padre dele, o Ro­drigues! 

  -Es­tá ali um, vê, à di­re­ita que é mes­mo o focin­ho do Ro­drigues. 

  -Val­ha-​nos Deus, va­mos em­bo­ra. 

  -Ai tia sossegue. Va­mos falar de out­ras coisas. 

  -De que é que tu queres que eu fale? Não di­gas na­da. 

  E re­começou a ol­har. Tin­ha um sen­ti­men­to atroz de es­tran­heza, sen­tia-​se per­di­da num mun­do al­heio que não po­dia e não que­ria en­ten­der. 

  Mas de­va­gar começ