as. 

  -Va­mos Joaquina -disse Ana. 

  E par­ti­ram. 

  Ao chegar a casa Ana, em vez de en­trar, sen­tou-​se cá fo­ra nos de­graus de gran­ito da es­ca­da e pôs-​se a ol­har o mar. 

  O Sol tin­ha subido no Céu, tin­ha aque­ci­do a ter­ra e as pe­dras mas o ar con­tin­ua­va fres­co e so­bre o mar havia ain­da o fi­no bril­ho de In­ver­no. A maré al­ta de­scia de­va­gar e as on­das quan­do es­tavam no cimo, mes­mo antes de que­brar, tor­navam-​se por um in­stante trans­par­entes e verdes. 

  Ana respirou fun­do e co­mo era seu cos­tume quan­do es­ta­va só, começou a falar em voz al­ta. E disse:

  -Bem fiz eu de me vir em­bo­ra daque­le sí­tio ex­co­munga­do. Só de ver as on­das e de res­pi­rar este cheiro já me sin­to mel­hor. Aqui é que eu es­tou bem. Nun­ca tive in­ve­ja de ninguém porque ten­ho es­ta casa de frente para o mar. 

  De­pois anun­ciou: 

  -Vou até à pra­ia. De­pois do que pas­sei es­ta man­hã pre­ciso de ir à pra­ia. 

  Descalçou-​se e poisou os sap­atos com as meias lá den­tro no de­grau da es­ca­da, atrav­es­sou o cam­in­ho de ter­ra e pedrin­ha sol­ta, en­trou na pra­ia, de­sceu para o mar. 

  Atrav­es­sou a lin­ha de al­gas, cas­cas de ouriços, búzios, con­chas, pedaços de madeira, pedaços de cor­tiça. 

  A areia mol­ha­da luzia. En­tão Ana ar­regaçou as man­gas bem aci­ma do co­tovelo, ar­regaçou um pouco a sa­ia com­pri­da e en­trou na or­la da on­da que­bra­da. Cur­vou-​se e com as duas mãos em con­cha cheias de água lavou e es­fre­gou a cara três vezes seguidas. Quan­do as mãos lhe troux­er­am a quar­ta con­cha de água be­beu-​a. De­pois endi­re­itou-​se e ol­hou a ex­ten­são azul de mar até ao hor­izonte e disse: 

  -Ben­di­to se­ja Deus, já me sin­to lava­da daqui­lo tu­do. 

  Respirou fun­do para sorv­er bem o cheiro da mare­sia e fi­cou um tem­po qui­eta, en­le­va­da co­mo sem­pre no in­char, no desabar e no es­pra­iar-​se das on­das. En­quan­to as­sim es­ta­va uma on­da mais forte mol­hou-​lhe a sa­ia até aos joel­hos. Ela riu-​se. 

  Mas de re­pente lem­brou-​se que «aqui­lo tu­do» ain­da não tin­ha acaba­do. E de no­vo se sen­tiu con­fusa e cansa­da. En­tão de­va­gar subiu a pra­ia, atrav­es­sou a pe­que­na en­tra­da, pe­gou nos sap­atos que deixara no de­grau e en­trou em casa. 

  Em voz al­ta disse:

  -A Cecília es­tá a chegar, ten­ho de preparar o al­moço. 

  Foi à co­zin­ha e, com os gestos mil e mil vezes repeti­dos acen­deu o lume, preparou o al­moço e pôs os pratos, os tal­heres, o pão e o vin­ho na mesa. 

  De­pois mu­dou de sa­ia, limpou os pés e sem se calçar foi ao jardim pôr a sa­ia mol­ha­da a se­car na cor­da. Deu uma vol­ta na hor­ta, col­heu hort­elã e sal­sa e voltou para den­tro, espre­itou as pan­elas e pôs a hort­elã na sopa, no ar­roz pôs a sal­sa e deu-​lhe uma vol­ta com a col­her de pau. 

  De­pois fi­cou sem na­da para faz­er. Sen­tou-​se nu­ma cadeira da sal­in­ha da en­tra­da. Re­via sem ces­sar as im­agens do pá­tio do tri­bunal e o mau pressá­gio era um pe­so den­tro do seu peito. 

  Es­per­ou uma ho­ra. Mal Cecília en­trou perce­beu que tin­ha cor­ri­do mal.

  -En­tão? -per­gun­tou Ana. 

  -Ai min­ha tia, não tra­go boas notí­cias re­spon­deu Cecília. 

  Sen­tou-​se em frente de Ana e de­satou a chorar. 

  -Não chores. O que é que cor­reu mal? 

  -As suas teste­munhas -disse Cecília en­tre soluços. 

  -Não chores, con­ta -disse Ana. 

  En­tão Cecília começou a con­tar que no tri­bunal o João e o Tomé pare­ci­am transtor­na­dos -mal re­spon­di­am às per­gun­tas que lh­es fazia o juiz: fi­cavam cal­ados e quan­do re­spon­di­am a sua voz era sum­ida e as re­spostas de­sajeitadas. De­pois quan­do o ad­vo­ga­do d