o pri­mo Abílio os in­ter­ro­gou não ac­er­taram uma, bar­al­haram tu­do. Quan­do o jul­ga­men­to acabou o ad­vo­ga­do de­las chamou-​a à parte e disse-​lhe que lhe pare­cia tu­do muito mal para­do. Per­gun­tou-​lhe se as teste­munhas de Ana não teri­am be­bido. Ela tin­ha re­spon­di­do que João e Tomé er­am seus viz­in­hos há muitos anos e que nun­ca os tin­ha vis­to com vin­ho a mais. Er­am dois home­ns muito as­sentes e muito sérios. Mas o ad­vo­ga­do tin­ha co­men­ta­do com ar du­vi­doso: «No tri­bunal pare­ci­am mes­mo sem norte». Ela tin­ha per­gun­ta­do se es­ta­va tu­do per­di­do, ele tin­ha re­spon­di­do que ia pen­sar mel­hor nis­so, mas que era pre­ciso es­per­ar que saísse a sen­tença. E no fim tin­ha acres­cen­ta­do que ain­da havia es­per­ança pois se perdessem po­di­am recor­rer da sen­tença. 

  Quan­do Cecília acabou de falar Ana fi­cou mu­da e com ar som­brio e cara um pouco pál­ida. 

  Hou­ve um lon­go e pe­sa­do silên­cio até que Cecília, ha­bit­ua­da ao génio fal­ador e ex­plo­si­vo da tia, se es­pan­tou com tan­ta mudez. Per­gun­tou: 

  -Ai min­ha tia, es­tá bem? Es­tá tão bran­ca.

  -Não es­tou bem, co­mo queres que es­te­ja bem? 

  -Ai, mas não se ar­relie -disse Cecília. Se perder pode recor­rer. 

  -Se perder, per­di e não recor­ro. Acabou-​se. Não quero mais na­da com tri­bunais, ou­viste -re­spon­deu Ana ex­al­ta­da. -E ho­je não me fales mais nis­to. Va­mos al­moçar. 

  Cecília calou-​se e foi encher os pratos de sopa. Com­er­am em silên­cio sen­tadas uma em frente da out­ra na mesa da co­zin­ha. No fim disse: 

  -Vou à min­ha li­da. 

  E Ana foi sen­tar-​se no cadeirão da sal­in­ha em frente do re­tra­to do mari­do. 

  Era uma grande e bela fo­tografia que num dia de um Verão anti­go lhe tirara e lhe ofer­ecera um ve­raneante muito cel­ebra­do pe­lo seu tal­en­to de fotó­grafo. Até fiz­era uma ex­posição no Por­to e tin­ha si­do muito gaba­do nos jor­nais. E mais uma vez Ana, co­mo to­dos os dias, se perdeu en­le­va­da na con­tem­plação do re­tra­to. A mod­ulação sub­til da fo­tografia a pre­to e bran­co era fiel à sua memória. Ali es­ta­va Manuel Bote, en­tre a reben­tação da va­ga, be­lo, firme e dis­tante co­mo um deus do mar rodea­do pela luz vi­va da man­hã mar­in­ha. Ali co­mo na sua memória na­da mu­dara o in­stante eter­no, ape­nas o tornara in­tocáv­el e dis­tante. E de no­vo a im­agem do homem, do mar e da luz troux­er­am à sua bo­ca o mes­mo anti­go sa­bor de sal e de ale­gria. 

  E sen­ta­da no cadeirão Ana sor­riu. Mas de­va­gar o seu sor­riso des­fez-​se: pare­ceu-​lhe de re­pente que al­go mu­dara e que o seu mari­do ago­ra a fi­ta­va com ol­har triste e severo. Ela re­con­heceu a acusação. 

  En­tão baixou a cabeça e o seu coração aper­tou-​se. De­ses­per­ada culpou-​se a si própria. O que lhe doía não era ir perder a sua hor­ta. O que lhe doía era ter ar­ras­ta­do o Tomé e o João para aque­la aven­tu­ra. Sabia que aque­le dia era para eles um dia de hu­mil­hação que nun­ca mais es­que­ce­ri­am. E não su­por­ta­va que aque­les home­ns que sem­pre tin­ha vis­to serenos e de cabeça lev­an­ta­da es­tivessem ago­ra con­fu­sos e cabis­baixos. 

  O que lhe im­por­ta­va a ela não era perder a questão mas sim man­ter in­tac­ta a or­dem do mun­do tal co­mo ela a imag­ina­va. 

  Sen­ta­da ol­ha­va lá para fo­ra através do vidro da janela, um vidro um tan­to fos­co de sal mas onde o vai e vem do mar tremeluzia. E no azul das águas, no bril­har irisa­do da luz, no quadra­do da janela, no trem­ular das er­vas sel­vagens da duna ten­ta­va en­con­trar uma saí­da para o seu re­mor­so, uma aber­tu­ra. 

  Nes­sa mes­ma man­hã, quan­do Ana seguia para a es­tação c