om a Joaquina ao voltar para casa, um ami­go dela, o marceneiro Zé Vieira, que viera à cidade para as­si­stir ao jul­ga­men­to, e de cam­in­ho com­prar uma plaina no­va de que pre­cisa­va, ter­mi­na­da a com­pra, di­rigiu-​se para o tri­bunal. Mas na rua no­va en­con­trou um con­heci­do que lhe disse que o jul­ga­men­to es­ta­va atrasa­do. 

  Zé Vieira, ven­do que ain­da tin­ha tem­po re­solveu ir à es­plana­da es­paire­cer um pouco e tomar uma bi­ca. Mal en­trou no bar Maré viu lo­go o Ro­drigues com o seu bigod­in­ho, acom­pan­hado por dois home­ns que es­tavam de costas para a en­tra­da. Perce­beu que o Ro­drigues fin­gia não o ver e, mal o avis­tara, tin­ha chama­do o cri­ado e pe­di­do a con­ta. 

  Zé Vieira que não gosta­va do Ro­drigues, fin­giu tam­bém não o ver, sen­tou-​se no out­ro la­do da sala e, pas­sa­do um min­uto, chamou o cri­ado. Este que já es­ta­va a levar um pra­to com a con­ta ao Ro­drigues, fez-​lhe sinal que o es­perasse.

  Co­mo era im­pa­ciente José Vieira começou a tam­bo­ri­lar com os de­dos no tam­po de pe­dra da mesa. E não queren­do ol­har para o la­do do Ro­drigues, vi­rou a cara e reparou nas suas próprias mãos ágeis e fi­nas, de marceneiro. Sor­riu lem­bran­do-​se de Ana que mui­ta vez lhe dis­sera: -Ó Zé tens umas mãos mes­mo in­teligentes! E ele sem­pre lhe re­spon­dia: -É que is­to de ser marceneiro apu­ra a pes­soa. 

  Lo­go a seguir sen­tiu o ar­ras­tar das cadeiras. Lev­an­tan­do a cabeça viu que o Ro­drigues já se di­ri­gia para a por­ta, mas es­tar­reci­do viu tam­bém que atrás dele iam Tomé e João. E seguin­do-​os com o ol­har até saírem reparou que iam os dois aos bor­dos. En­tão ol­hou para a mesa de onde tin­ham saí­do e viu-​a at­ul­ha­da de co­pos e tigelin­has.

  Nes­sa al­tura chegou o cri­ado com o café e o marceneiro, a puxar-​lhe pela lín­gua, co­men­tou:

  -Muito be­ber­am aque­les seus fregue­ses! 

  -Lá is­so! -re­spon­deu o cri­ado -mas ol­he que o do bigod­in­ho só be­beu dois cafés e um copo de água. Mas sem­pre a puxar os out­ros para be­berem mais. Pe­dia tige­las de azeitonas bem sal­gad­in­has, mais uma e mais out­ra. Vin­ho verde de Ama­rante bem gelad­in­ho e mais um copo sen­hor João e mais um copo sen­hor Tomé, e ago­ra va­mos ex­per­imen­tar o verde de Ponte da Bar­ca. E de­pois de tan­tos co­pos o sen­hor João e o sen­hor Tomé que aqui tin­ham chega­do tão com­pos­tos e del­ica­dos es­tavam avari­ados de to­do! 

  O marceneiro perce­beu lo­go que fo­ra de propósi­to que Ro­drigues tin­ha em­bria­ga­do as duas teste­munhas. En­er­va­do be­beu a bi­ca de um só tra­go, pediu out­ra com mais um copo de água e a con­ta, pagou, agrade­ceu e saiu cor­ren­do para o tri­bunal. Mas quan­do lá chegou o jul­ga­men­to já tin­ha começa­do.

  Quan­do Cecília saiu Ana deixou-​se ficar na cadeira ora re­moen­do a sua ar­relia ora cis­man­do o di­va­gar das suas memórias. Lenta­mente começou a es­cure­cer mas não acen­deu o can­deeiro sus­pen­so de tec­to -pois não gosta­va daque­la clar­idade que, co­mo sem­pre dizia, tor­na­va tu­do cinzen­to. Mas gosta­va de ficar no lus­co-​fus­co ol­han­do através do vidro da janela a lenta trans­for­mação da luz que lá fo­ra se re­flec­tia oblíqua so­bre o mar. 

  Até que Cecília en­trou de rompante acen­deu a elec­tri­ci­dade, sen­tou-​se a seu la­do, disse que tin­ha en­con­tra­do o marceneiro e re­la­tou tu­do quan­to ele lhe tin­ha con­ta­do e acabou dizen­do: 

  -O José Vieira diz que se a tia perder a questão e quis­er recor­rer ele irá ser sua teste­munha. E crê que o cri­ado do bar Maré tam­bém es­tará dis­pos­to a ir, se lhe pedi­rem. Es­pero que ago­ra, se perder a questão, a min­ha tia vá recor­rer.

  Ana primeiro deixou-