Title: E tais Pancadas tem a Costa da China
Author: Fernão Mendes Pinto
CreationDate: Thu Jun 25 12:38:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 11 17:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  “Pere­gri­nação” E tais Pan­cadas tem a Cos­ta da Chi­na

  Fer­não Mendes Pin­to

  A pub­li­cação dos capí­tu­los 1 e 59 a 67 do livro Pere­gri­nação, de Fer­não Mendes Pin­to, foi gen­til­mente au­tor­iza­da por Maria Al­ber­ta Menéres.

  © 1996, Maria Al­ber­ta Menéres e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-76-6

  Lis­boa, Fevereiro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  E TAIS PAN­CADAS TEM

  A COS­TA DA CHI­NA

  Do que pas­sei em min­ha 

  mo­ci­dade neste reino 

  até que me em­bar­quei para a Ín­dia 

  Quan­do às vezes pon­ho di­ante dos ol­hos os muitos e grandes tra­bal­hos e in­fortúnios que por mim pas­saram, começa­dos no princí­pio da min­ha primeira idade e con­tin­ua­dos pela maior parte e mel­hor tem­po da min­ha vi­da, acho que com mui­ta razão me pos­so queixar da ven­tu­ra que parece que to­mou por par­tic­ular tenção e em­pre­sa sua perseguir-​me e mal­tratar-​me, co­mo se is­so lhe hou­vera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque ve­jo que, não con­tente de me pôr na min­ha Pá­tria lo­go no começo da min­ha mo­ci­dade, em tal es­ta­do que nela vivi sem­pre em mis­érias e em po­breza, e não sem al­guns so­bres­saltos e peri­gos da vi­da, me quis tam­bém levar às partes da Ín­dia, onde em lu­gar do remé­dio que eu ia bus­car a elas, me foram crescen­do com a idade os tra­bal­hos e os peri­gos. Mas por out­ro la­do, quan­do ve­jo que do meio de to­dos estes peri­gos e tra­bal­hos me quis Deus tirar sem­pre a sal­vo e pôr-​me em se­gu­rança, acho que não ten­ho tan­ta razão de me queixar de to­dos os males pas­sa­dos, quan­ta ten­ho de lhe dar graças por este só bem pre­sente, pois me quis con­ser­var a vi­da para que eu pudesse faz­er es­ta rude e tosca es­crit­ura que por her­ança deixo a meus fil­hos (porque só para eles é min­ha in­tenção es­crevê-​la) para que eles ve­jam nela estes meus tra­bal­hos e peri­gos da vi­da que pas­sei no de­cur­so de vinte e um anos, em que fui treze vezes cati­vo e dezas­sete ven­di­do, nas partes da Ín­dia, Etiópia, Arábia Fe­liz, Chi­na, Tartária, Macáçar, Sama­tra e out­ras muitas provín­cias daque­le ori­en­tal ar­quipéla­go dos con­fins da Ásia, a que os es­critores chins, siame­ses, guéus, léquios, chamam em suas ge­ografias a pes­tana do mun­do, co­mo ao adi­ante es­pero tratar muito par­tic­ular e muito am­pla­mente. Daqui por um la­do tomem os home­ns mo­ti­vo de não de­san­imarem com os tra­bal­hos da vi­da para deixarem de faz­er o que de­vem, porque não há nen­huns, por grandes que se­jam, com que não pos­sa a na­tureza hu­mana, aju­da­da do fa­vor di­vi­no, e por out­ro me aju­dem a dar graças ao Sen­hor om­nipo­tente por us­ar comi­go da sua in­fini­ta mis­er­icór­dia, ape­sar de to­dos meus peca­dos, porque eu en­ten­do e con­fes­so que de­les me nasce­ram to­dos os males que por mim pas­saram, e dela as forças e o ân­imo para os poder pas­sar e es­capar de­les com vi­da. 

  Com An­tónio de Faria 

  pele­jou com o corsário Co­ja Acém 

  e do que com ele lhe sucedeu 

  Vele­jan­do nós pe­lo rio aci­ma com ven­to e maré que Nos­so Sen­hor en­tão nos deu, em menos de uma ho­ra chegá­mos onde os in­imi­gos es­tavam, que até este tem­po nos não tin­ham ain­da sen­ti­do; mas co­mo eles er­am ladrões e se temi­am da gente da ter­ra, pe­los males e rou­bos que ali ca­da dia lhe fazi­am, es­tavam tão apar­el­ha­dos e tin­ham tão boa vi­gia que em nos ven­do to­caram um sino muito apres­sada­mente, ao som do qua