ma­dos, sem nun­ca faz­erem nela rou­bos nem males co­mo ele dizia; e o out­ro pon­to foi diz­er-​lhe que porque el-​rei de Por­tu­gal, seu sen­hor, era com ver­dadeira amizade ir­mão de el-​rei da Chi­na, vin­ham eles à sua ter­ra, co­mo tam­bém os chins por es­ta causa cos­tu­mavam ir a Mala­ca onde er­am trata­dos com to­da a ver­dade, fa­vor e justiça, sem se lh­es faz­er agra­vo nen­hum. E ain­da que o man­darim am­bos estes pon­tos não sofresse, to­davia este der­radeiro de diz­er que el-​rei de Por­tu­gal era ir­mão de el-​rei da Chi­na, to­mou tão a mal que, sem ter mais re­speito a coisa al­gu­ma, man­dou açoitar os dois que levaram a car­ta, e cor­tar-​lh­es as orel­has, e os tornou as­sim a man­dar com a re­spos­ta para An­tónio de Faria, es­cri­ta num pedaço de pa­pel ro­to que dizia as­sim: 

  -Bare­ja triste, nasci­da de mosca en­char­ca­da no mais su­jo mon­turo que pode haver em mas­mor­ras de pre­sos que nun­ca se limparam, quem deu atre­vi­men­to à tua baix­eza para para­fusar nas coisas do céu? Porque man­dan­do eu ler a tua petição, em que, co­mo a sen­hor me pe­dias que hou­vesse piedade de ti que eras mis­eráv­el e po­bre, à qual eu, por ser grandioso já me tin­ha in­cli­na­do e es­ta­va quase sat­is­feito do pouco que davas, to­cou no ou­vi­do de min­has orel­has a blas­fémia de tua sober­ba, dizen­do que o teu rei era ir­mão do fil­ho do Sol, leão coroa­do por pode­rio in­crív­el no trono do mun­do, de­baixo de cu­jo pé es­tão sub­meti­das to­das as coroas dos que gov­er­nam a ter­ra com re­al cep­tro de man­do, servin­do-​lhe con­tin­ua­mente de brochas de suas al­par­cas, es­ma­ga­dos na tril­ha do seu cal­can­har, co­mo os es­critores das bralas de ouro teste­munham na fé de suas ver­dades em to­das as ter­ras que as gentes habitam. E por es­ta taman­ha here­sia man­dei queimar o teu pa­pel, rep­re­sen­tan­do nele por cer­imó­nia de cru­el justiça a vil es­tá­tua de tua pes­soa, co­mo de­se­jo faz­er a ti tam­bém por taman­ho peca­do, pela qual te man­do que lo­go e lo­go sem mais tar­dar te faças à vela, para que não fique maldito o mar que em si te sus­ten­ta. 

  Aca­ban­do o in­tér­prete (que lá se chama tan­su) de ler a car­ta e declarar o que ela dizia, to­dos os que a ou­vi­ram ficaram as­saz cor­ri­dos, e An­tónio de Faria mais cor­ri­do e afronta­do que to­dos: e es­tiver­am um grande es­paço al­gum tan­to con­fu­sos, porque de to­do perder­am as es­per­anças de res­gatarem os cativos. E dis­cutin­do o de­scon­cer­to das palavras da car­ta e o mau en­si­no do man­darim, se de­ter­mi­nou no fim de tu­do que saíssem em ter­ra e acometessem a cidade, porque Nos­so Sen­hor os aju­daria con­forme à boa tenção com que o fazi­am, e para efeito dis­so se or­denaram lo­go em­bar­cações em que saíssem de ter­ra, que foram qua­tro bar­caças de pescadores que aque­la noite se tomaram. E fazen­do-​se alarde da gente que po­dia haver para este efeito, se acharam trezen­tos home­ns, de que se­ten­ta er­am por­tugue­ses e os mais es­cravos e mar­in­heiros, com a gente de Quiay Pan­jão, dos quais cen­to e sessen­ta er­am ar­cabuzeiros, e os mais com lanças, e chuças, e bom­bas de fo­go, e out­ras muitas maneiras de ar­mas necessárias para o efeito deste negó­cio. 

  Co­mo An­tónio de Faria 

  acome­teu a cidade de Nou­day 

  e o que lhe acon­te­ceu 

  Ao out­ro dia quase man­hã clara, An­tónio de Faria se fez à vela pe­lo rio aci­ma com três jun­cos e a lor­cha, e com as qua­tro bar­caças que tin­ha toma­do, e foi sur­gir em seis braças e meio pe­ga­do com os muros da cidade; e amainan­do as ve­las sem sal­va nem es­tron­do de ar­til­haria, pôs ban­deira de ve­ni­aga ao cos­tume dos chins, para que com as mostras destas pazes lh­es não fi­