 lo­go à por­ta e nela achá­mos o man­darim com cer­ca de seis­cen­tos home­ns con­si­go, o qual es­ta­va em cima de um bom cav­alo, com umas couraças de ve­lu­do roxo de cravação doura­da do tem­po anti­go, as quais de­pois soube­mos que foram de um tal Tomé Pires, que El-​Rei D. Manuel da glo­riosa memória man­dara co­mo em­baix­ador à Chi­na, na nau de Fer­não Peres de An­drade, gov­er­nan­do o Es­ta­do da Ín­dia, Lopo Soares de Al­ber­garia. 

  O man­darim, com a gente que tin­ha con­si­go nos quis faz­er ros­to ao en­trar pela por­ta, com o que en­tre eles e nós se travou uma cru­el briga, em que por es­paço de qua­tro ou cin­co cre­dos se iam eles já me­tendo connosco com muito menos me­do que os out­ros da ponte, se um moço nos­so não der­rubasse o man­darim do cav­alo abaixo com uma es­pin­gar­da­da que lhe deu pe­los peitos, com o que os chins ficaram tão as­som­bra­dos que to­dos jun­ta­mente voltaram lo­go as costas, e se começaram a recol­her sem nen­hu­ma or­dem pelas por­tas den­tro, e nós to­dos de vol­ta com eles, der­ruban­do-​os às lançadas, sem nen­hum ter acor­do de fechar as por­tas, e levan­do-​os as­sim co­mo a ga­do por uma rua muito com­pri­da, saíram por out­ra por­ta que ia para o sertão, ao qual se acol­her­am to­dos sem ficar nem um só. An­tónio de Faria, recol­hen­do en­tão a si to­da a gente, para não haver al­gum des­man­cho, se fez to­do num cor­po e se foi com ela à chi­fan­ga, que era a prisão onde os nos­sos es­tavam, que em nos ven­do de­ram uma taman­ha gri­ta de .. Sen­hor Deus mis­er­icór­dia». que fazia tremer as carnes. E man­dou lo­go com macha­dos que­brar as por­tas e as grades. e co­mo o de­se­jo e o fer­vor dis­to era grande. em um mo­men­to foi tu­do feito em pedaços. e os fer­ros com que os cativos es­tavam pre­sos. lo­go tira­dos. de maneira que em muito breve es­paço os com­pan­heiros to­dos es­tavam soltos e livres. E foi man­da­do aos sol­da­dos e à mais gente da nos­sa com­pan­hia que ca­da um por si apan­has­se o que pudesse. porque não havia de haver repar­tição nen­hu­ma. senão que o que ca­da um lev­asse havia de ser tu­do seu. mas que lh­es ro­ga­va que fos­se muito de­pres­sa. porque lh­es não da­va mais es­paço que só meia ho­ra muito pe­que­na. ao que to­dos re­spon­der­am que er­am muito con­tentes. 

  En­tão se começaram lo­go uns a me­ter pelas casas. e An­tónio de Faria se foi às do man­darim. que quis por seu quin­hão. onde achou oito mil taéis de pra­ta so­mente. e cin­co boiões grandes de almís­car que man­dou recol­her. e o mais largou aos moços que iam com ele, que foi mui­ta se­da, retrós, cetins, dam­as­cos, e barças de porce­lana fi­nas, em que to­dos car­regaram até mais não poderem. de maneira que as qua­tro bar­cas e as três cham­panas em que a gente de­sem­bar­cara, por qua­tro vezes se car­regaram e descar­regaram nos jun­cos, tan­to que não hou­ve moço nem mar­in­heiro que não falasse de caixão e caixões de peças, fo­ra o se­cre­to com que ca­da um se calou. 

  Ven­do An­tónio de Faria que era já pas­sa­da mais de ho­ra e meia, man­dou com mui­ta pres­sa recol­her a gente, a qual não havia coisa que a pudesse de­sape­gar da pres­sa em que an­da­va, e na gente de mais con­ta se enx­er­ga­va ain­da is­to muito mais. Pe­lo que, re­ceoso ele de lhe acon­te­cer al­gum de­sas­tre, por se já vir chegan­do a noite, man­dou pôr fo­go à cidade por dez ou doze partes, e co­mo a maior parte dela era de tabua­do de pin­ho e de out­ra madeira, em menos de um quar­to de ho­ra ardeu tão brava­mente que pare­cia coisa do in­fer­no. E re­ti­ran­do-​se com to­da a gente para a pra­ia, se em­bar­cou sem oposição nen­hu­ma, e to­dos muito ri­cos e muito con­tentes, e com muitas moças muito for­mosas, que era lás­ti­m