a vê-​las ir atadas com os mor­rões dos ar­cabuzes, a qua­tro e qua­tro, e cin­co a cin­co, e to­das choran­do, e os nos­sos rindo e can­tan­do. 

  Do mais que An­tónio de Faria 

  pas­sou até chegar 

  às por­tas de Liampó 

  Sendo An­tónio de Faria em­bar­ca­do com to­da a gente, co­mo era já tarde, não se aten­deu por en­tão a mais que a cu­rar os feri­dos, que foram cin­quen­ta, de que oito er­am por­tugue­ses, e os mais es­cravos e mar­in­heiros, e a man­dar en­ter­rar os mor­tos que foram nove, em que en­trou um por­tuguês. E pas­san­do a noite com boa vi­gia, por causa dos jun­cos que es­tavam no rio, lo­go que a man­hã foi clara se foi a uma povoação que es­ta­va da out­ra parte à bor­da da água e a achou de­spe­ja­da de to­da a gente, sem se achar nela uma só pes­soa, mas achou as casas com to­do o recheio de suas fazen­das e in­fini­tos man­ti­men­tos, com os quais An­tónio de Faria man­dou car­regar os jun­cos, re­ceoso que pe­lo que ali tin­ha feito lhos não quisessem vender em nen­hum por­to onde fos­se. E com is­to se de­ter­mi­nou, com pare­cer e con­sel­ho de to­dos, ir in­vernar os três meses que lhe fal­tavam para poder faz­er sua vi­agem, a uma il­ha de­ser­ta que es­ta­va ao mar de Liampó quinze léguas, que se chama­va Pu­lo Hin­hor, de boa agua­da e bom sur­gi douro, por lhe pare­cer que in­do a Liampó pode­ria prej­udicar a mer­can­cia dos por­tugue­ses que lá in­ver­navam qui­eta­mente com suas fazen­das, a qual de­ter­mi­nação e bom propósi­to to­dos lhe lou­varam muito. 

  Par­tidos nós daqui deste por­to de Nou­day, haven­do já cin­co dias que vele­já­va­mos por en­tre as il­has de Co­molém e a ter­ra firme, um sába­do ao meio-​dia nos veio acome­ter um ladrão de nome Pre­matá Gun­del, grandís­si­mo in­imi­go da nação por­tugue­sa, e a quem já por vezes tin­ha feito muito dano, tan­to em Patane co­mo em Sun­da e Sião e nas mais partes onde ac­er­ta­va de os achar a seu propósi­to, e pare­cen­do-​lhe que éramos chins, nos acome­teu com dois jun­cos muito grandes em que trazia duzen­tos home­ns de pele­ja, fo­ra a equipagem da mareação das ve­las; e afer­ran­do um de­les o jun­co de Mem Tar­bor­da, o teve quase ren­di­do; porém o Quiay Pan­jão, que ia um pouco mais ao mar, ven­do-​o daque­la maneira voltou so­bre ele e abal­roou o jun­co do in­imi­go as­sim en­fu­na­do co­mo vin­ha, e toman­do-​o pela quadra de es­ti­bor­do lhe deu taman­ha pan­ca­da que am­bos ali lo­go se foram ao fun­do, com o que Mem Tabor­da fi­cou livre do peri­go em que es­ta­va. A is­to acud­iram com mui­ta pres­sa três lor­chas nos­sas que An­tónio de Faria levara do por­to de Nou­day, e quis Nos­so Sen­hor que chegan­do elas, sal­varam a maior parte da nos­sa gente, e os da parte con­trária se afog­aram to­dos. Neste tem­po chegou o Pre­matá Gun­del ao jun­co grande em que ia An­tónio de Faria, e afer­ran­do-​o com dois arpéus ata­dos em cadeias de fer­ro muito com­pri­das, o teve atra­ca­do de popa e de proa, onde se travou en­tre eles uma briga muito para ver, a qual de­pois de du­rar es­paço de mais de meia ho­ra, os in­imi­gos pele­jaram com tan­to es­forço que An­tónio de Faria se achou com a maior parte da sua gente feri­da, e com is­to por duas vezes em risco de ser toma­do; porém, acud­in­do-​lhe en­tão as três lor­chas e um jun­co pe­queno em que vin­ha Pêro da Sil­va, prou­ve a Nos­so Sen­hor que com este so­cor­ro tornaram os nos­sos a gan­har o que tin­ham per­di­do, e aper­taram os in­imi­gos de tal maneira que em pouco es­paço se acabou o negó­cio de con­cluir de to­do, com morte de oiten­ta e seis mouros que es­tavam den­tro do jun­co de An­tónio de Faria, e o tin­ham pos­to em tan­to aper­to que os nos­sos não tin­ham já mais nele do que o chapitéu da