 popa. E daqui, en­tran­do no jun­co do corsário, me­ter­am à es­pa­da to­dos quan­tos acharam nele, sem a nen­hum con­ser­varem a vi­da, e a equipagem se tin­ha já to­da lança­do ao mar. Mas não se hou­ve es­ta vitória tão bara­ta que não cus­tasse as vi­das de dezas­sete dos nos­sos, nos quais en­traram cin­co por­tugue­ses, dos mel­hores sol­da­dos e mais es­força­dos de to­da a com­pan­hia, e quarenta e três muito feri­dos, dos quais um foi An­tónio de Faria que fi­cou com uma zar­gun­cha­da e duas cu­ti­ladas. 

  Con­cluí­da as­sim es­ta briga, se fez in­ven­tário do que o jun­co dos in­imi­gos trazia, e foi avali­ada a pre­sa em oiten­ta mil taéis, de que a maior parte era pra­ta do Japão que o corsário tin­ha toma­do em três jun­cos de mer­cadores que vin­ham de Fi­ran­do para o Chinchéu, de mo­do que só nes­ta em­bar­cação trazia este corsário cen­to e vinte mil cruza­dos, e no jun­co que se foi ao fun­do dis­ser­am que trazia quase out­ro tan­to, com o que muitos dos nos­sos ficaram bem magoa­dos. Com es­ta pre­sa se recol­heu An­tónio de Faria a uma il­ha pe­que­na chama­da Buncalou, que es­ta­va dali a três ou qua­tro léguas para a parte do oeste, de boa agua­da e de bom surgi­douro, e de­sem­bar­can­do em ter­ra es­teve nela de­zoito dias agasal­ha­do em choças que aí se fiz­er­am, por causa dos muitos feri­dos que lev­ava, onde quis Nos­so Sen­hor que to­dos tiver­am saúde. E dali seguimos nos­sa ro­ta para onde lev­áva­mos de­ter­mi­na­do, An­tónio de Faria no seu jun­co grande e Mem Tabor­da e An­tónio An­riquez no seu, e Pêro da Sil­va no pe­queno que se to­mou em Nou­day, e o Quiay Pan­jão com to­dos os seus no que se to­mou ao ladrão, em sat­is­fação do que tin­ha per­di­do, com mais vinte mil taéis que se lhe de­ram do monte maior, com o que se ele deu por bem pa­go e sat­is­feito, e to­dos os nos­sos foram tam­bém con­tentes com is­so, por lho An­tónio de Faria pedir com grande in­stân­cia, e muitas promes­sas para o di­ante. E nave­gan­do nós des­ta maneira, chegá­mos dali a seis dias às por­tas de Liampó, que são duas il­has a três léguas donde naque­le tem­po os por­tugue­ses fazi­am o tra­to de sua fazen­da, que era uma povoação que eles tin­ham feito em ter­ra, de mais de mil casas, com gov­er­nança de vereadores, e ou­vi­dor, e al­caides, e out­ras seis varas de justiça e ofi­ci­ais da repúbli­ca, onde os es­crivães no fim das es­crit­uras públi­cas que fazi­am, pun­ham: 

  -«E eu, fu­lano, públi­co tabelião das no­tas e ju­di­cial nes­ta cidade de Liampó, por el-​rei nos­so sen­hor» -co­mo se ela es­tivera situ­ada en­tre San­tarém e Lis­boa, e is­to com tan­ta con­fi­ança e ufa­nia que havia já casas de três mil cruza­dos de cus­to, as quais to­das tan­to grandes co­mo pe­que­nas, por nos­sos peca­dos foram de­pois de to­do de­struí­das e postas por ter­ra pe­los chins, sem ficar de­las coisa em que se pudesse pôr os ol­hos, co­mo mais larga­mente con­tarei em seu lu­gar. E en­tão se verá quão in­cer­tas são as coisas da Chi­na, de que nes­ta ter­ra se tra­ta com tan­ta cu­riosi­dade, e de que al­guns en­gana­dos fazem tan­ta con­ta, porque em ca­da ho­ra es­tão ar­risca­dos a muitos de­sas­tres e desven­turas. 

  Do que fez An­tónio de faria 

  chegan­do às por­tas de Liampó, 

  e das no­vas que aí teve 

  do que se pas­sa­va no reino da Chi­na 

  Por en­tre es­tas duas il­has a que os nat­urais da ter­ra e os que naveg­am aque­la cos­ta chamam as por­tas de Liampó, vai um canal de pouco mais de dois tiros de es­pin­gar­da, de largo, com fun­do de vinte até vinte e cin­co braças, e em partes tem an­gras de bom surgi­douro e ribeiras fres­cas de água doce, que de­scem do cume da ser­ra por en­tre bosques de ar­vore­do muito bas­to