chas mor­reram pas­sante de duzen­tas pes­soas; e a out­ra que lev­ava o capitão mor­to, tão-​pouco pôde es­capar, porque Quiay Pan­jão foi atrás dela na sua cham­pana, que era o ba­tel do seu jun­co, e a foi tomar já pe­ga­da com ter­ra, mas sem gente nen­hu­ma, porque to­da se lhe lançou ao mar, de que a maior parte se perdeu tam­bém nuns pene­dos que es­tavam jun­to da pra­ia, com a qual vista os in­imi­gos que ain­da es­tavam nos jun­cos, que po­di­am ser até cen­to e cin­quen­ta, e to­dos mouros lusões, e bornéus, com al­gu­ma mis­tu­ra de jaus, começaram a en­fraque­cer, de maneira que muitos começavam já a se lançar ao mar.

  O per­ro do Co­ja Acém que até este tem­po não era ain­da con­heci­do, acud­iu com mui­ta pres­sa ao des­man­cho que via nos seus, ar­ma­do com uma coura de lâmi­nas de ce­tim carmes­im fran­ja­da de ouro, que fo­ra de por­tugue­ses, e bradan­do al­to para que to­dos o ou­vis­sem, disse por três vezes: 

  -Lah hi­lah hi­lah lah muhamd roçol ha­lah, ó mas­soleimões e home­ns jus­tos da san­ta lei de Mafamede, co­mo vos deix­ais vencer as­sim por uma gente tão fra­ca co­mo são estes cães, sem mais ân­imo que de gal­in­has bran­cas e de mul­heres bar­badas? A eles, a eles, que cer­ta temos a promes­sa do livro das flo­res, em que o pro­fe­ta No­by abas­tou de deleites os daroe­ses da casa de Meca. As­sim fará ho­je a vós e a mim, se nos ban­har­mos no sangue destes cafres sem lei! 

  Com as quais malditas palavras o Di­abo os es­forçou de maneira que fazen­do-​se to­dos num cor­po, amoucos, tornaram a voltar tão es­forçada­mente que era es­pan­to ver co­mo se meti­am nas nos­sas es­padas. 

  An­tónio de Faria en­tão bradan­do tam­bém aos seus, lh­es disse: 

  -Ah, cristãos e sen­hores meus, se estes se es­forçam na maldita sei­ta do Di­abo, es­force­mo-​nos nós em Cristo Nos­so Sen­hor pos­to na Cruz por nós, que nos não há-​de de­sam­parar, por mais pecadores que se­jamos, porque en­fim so­mos seus, o que estes per­ros não são. 

  E ar­reme­tendo com este fer­vor e ze­lo da fé, ao Co­ja Acém, co­mo quem lhe tin­ha boa von­tade, lhe deu com am­bas as mãos com uma es­pa­da que trazia, uma tão grande cu­ti­la­da pela cabeça, que cor­tan­do-​lhe um bar­rete de mal­ha que trazia, o der­rubou lo­go no chão, e tor­nan­do-​lhe com out­ro revés lhe de­ce­pou am­bas as per­nas, de que se não pôde mais lev­an­tar, o qual sendo vis­to pe­los seus, de­ram uma grande gri­ta e ar­reme­tendo a An­tónio de Faria se igualaram com ele uns cin­co ou seis com tan­to ân­imo e ou­sa­dia que nen­hu­ma con­ta fiz­er­am de trin­ta por­tugue­ses de que ele es­ta­va rodea­do, e lhe de­ram duas cu­ti­ladas, com que o tiver­am quase no chão, o que ven­do os nos­sos, acud­iram lo­go com mui­ta pres­sa, e es­forçan­do-​os ali Nos­so Sen­hor, o fiz­er­am de maneira que em pouco mais de dois cre­dos foram mor­tos, dos in­imi­gos ali so­bre o Co­ja Acém, quarenta e oito, e dos nos­sos catorze so­mente, de que só cin­co foram por­tugue­ses, e os mais moços es­cravos muito bons cristãos e muito leais. Já neste tem­po os que fi­cavam começaram a en­fraque­cer, e se foram re­ti­ran­do des­or­de­nada­mente para os chapitéus da proa, com a tenção de se faz­erem aí fortes, a que vinte sol­da­dos dos trin­ta que es­tavam no jun­co de Quiay Pan­jão, acud­iram com mui­ta pres­sa, e toman­do-​os de ros­to antes que se as­sen­hore­assem do que pre­tendi­am, os aper­taram de maneira que os fiz­er­am lançar to­dos ao mar, com taman­ho de­sati­no que uns caíam por cima dos out­ros. An­ima­dos en­tão os nos­sos com o nome de Cristo Nos­so Sen­hor, por quem chamavam con­tin­ua­mente, e com a vitória que já con­heci­am, e com a mui­ta hon­ra que tin­ham gan­ho, os acabaram ali de matar 