n­ta e seis; estes, em ven­do An­tónio de Faria, de­ram uma grande gri­ta co­mo que a pedir-​lhe mis­er­icór­dia, a qual ele en­tão não quis us­ar com eles, dan­do por razão que se não po­dia dar a vi­da a quem tan­tos cristãos tin­ha mor­to, e man­dan­do-​lh­es pôr fo­go por seis ou sete partes, co­mo a casa era de madeira brea­da e cober­ta de fol­ha de palmeira se­ca, ardeu de maneira que foi uma es­pan­tosa coisa de ver, e em parte piedosa, pela hor­ri­bil­idade dos gri­tos que os mis­eráveis davam den­tro quan­do a labare­da começou a se atear por to­das as partes; al­guns de­les se quis­er­am lançar pelas frestas que a casa tin­ha por cima, porém os nos­sos co­mo magoa­dos os re­ce­ber­am de maneira que no ar er­am es­peta­dos em muitas chuças e lanças. Acaba­da es­ta crueza, tor­nan­do-​se An­tónio de Faria à pra­ia onde es­ta­va o jun­co que Co­ja Acém tomara havia vinte e seis dias aos por­tugue­ses de Liampó, en­ten­deu lo­go em o lançar ao mar, porque já neste tem­po es­ta­va con­ser­ta­do, e de­pois de es­tar na água o en­tre­gou a seus donos, que er­am Mem Tabor­da e An­tónio An­riquez, ( ... ). E fazen­do-​os pôr a mão a am­bos num livro que tin­ha na mão, lh­es disse: 

  -Eu, em nome destes meus ir­mãos e com­pan­heiros tan­to vivos co­mo mor­tos, a quem este vos­so jun­co tem cus­ta­do tan­tas vi­das e tan­to sangue co­mo ho­je vistes, vos faço es­mo­la co­mo cristão, de tu­do, para que Deus Nos­so Sen­hor no-​la re­ce­ba por es­sa no seu san­to reino, e nos queira dar nes­ta vi­da perdão de nos­sos peca­dos, e na out­ra a sua glória, co­mo con­fio que dará a estes nos­sos ir­mãos que ho­je mor­reram co­mo bons e fiéis cristãos, por sua san­ta fé católi­ca; porém vos peço e re­comen­do muito e vos ad­moesto por este ju­ra­men­to que vos dou, que não tomeis mais que a vos­sa fazen­da so­mente, di­go, to­da a que trazíeis de Liampó, tan­to vos­sa co­mo de partes neste vos­so jun­co, porque nem eu vos dou mais, nem é razão que vós a tomeis, porque fare­mos am­bos nis­so o que não de­ve­mos, eu em vo-​la dar e vós em a tomardes. 

  Mem Tabor­da e An­tónio An­riquez, que quiçá não es­per­avam aqui­lo dele, se lhe lançaram aos pés com os ol­hos cheios de água, e queren­do com palavras dar-​lhe as graças pela mer­cê que lh­es fazia, o ím­peto das lá­gri­mas lho im­pediu, de maneira que se tornou ali a ren­ovar um las­ti­moso e triste pran­to pe­los mor­tos que ali es­tavam já en­ter­ra­dos, e com a ter­ra que tin­ham em cima de si, ain­da ban­ha­da pe­lo seu fres­co sangue. Os dois começaram lo­go a en­ten­der em co­brarem sua fazen­da, e foram por to­da a il­ha com cer­ca de cin­quen­ta ou sessen­ta moços que os sen­hores de­les lh­es em­prestaram, a recol­her a se­da mol­ha­da que ain­da es­ta­va a enx­ugar, de que to­das as ár­vores es­tavam cheias, fo­ra mais de duas casas em que es­ta­va a enx­uta, e a mais bem acondi­ciona­da, que co­mo eles tin­ham di­to er­am cem mil taéis de em­prego, no que tin­ham parte mais de cem home­ns, tan­to dos que fi­cavam em Liampó, co­mo de out­ros que es­tavam em Mala­ca, a quem se ela lá man­da­va. E a fazen­da que estes dois home­ns ain­da recol­her­am va­le­ria de cem mil cruza­dos para cima, porque a mais, que po­dia ser a terça parte, se perdeu na po­dre, na mol­ha­da, na que­bra­da, e na fur­ta­da, de que nun­ca se soube parte. 

  Recol­hen­do-​se após is­to, An­tónio de Faria, para a sua em­bar­cação, não aten­deu aque­le dia a mais que vis­itar e prover os feri­dos, e agasal­har os sol­da­dos, por ser já quase noite; e quan­do ao out­ro dia foi man­hã clara, foi ao jun­co grande que tin­ha toma­do, o qual es­ta­va ain­da cheio de cor­pos mor­tos do dia an­te­ri­or, e man­dan­do-​os lançar to­dos ao mar, 