do en­tão o seu con­destáv­el dar fo­go a um fal­cão para que os out­ros jun­cos lh­es acud­is­sem naque­le tra­bal­ho, ele o não quis con­sen­tir, dizen­do que já que Nos­so Sen­hor era servi­do de eles ali acabarem, não que­ria nem era razão que tam­bém os out­ros por sua causa ali se perdessem, mas que pe­dia e ro­ga­va a to­dos que o aju­dassem, a tra­bal­harem em públi­co com as mãos e em se­cre­to pedi­rem a Deus perdão dos seus peca­dos, e graça para emen­darem a vi­da, porque se as­sim o fizessem de to­do o seu coração, ele lh­es dizia que muito ce­do se ve­ri­am a sal­vo e livres, daque­le tra­bal­ho. E com is­to, ar­reme­tendo ao mas­tro grande, o fez cor­tar jun­to dos tam­boretes da se­gun­da cober­ta, e em este cain­do fi­cou o jun­co al­gum tan­to qui­eto, ain­da que a sua que­da cus­tasse a vi­da de três mar­in­heiros e de um moço nos­so, porque ao cair os col­heu de­baixo e os fez em pedaços; e após este, man­dou tam­bém cor­tar to­dos os out­ros mas­tros de popa e de proa, e ar­rasar to­das as obras dos gasal­ha­dos, de mo­do que tu­do foi fo­ra até à primeira cober­ta, e con­quan­to es­tas coisas se fizessem com grande presteza, quase que na­da nos aproveita­va, por ser o tem­po taman­ho, o mar tão grosso, a noite tão es­cu­ra, o es­car­céu tão al­to, o cheiro tão forte, e o ím­peto do ven­to tão in­com­portáv­el e de re­fre­gas tão fu­riosas que não havia homem que as pudesse es­per­ar com o ros­to di­re­ito. Neste mes­mo tem­po os out­ros qua­tro jun­cos fiz­er­am tam­bém sinal de co­mo se per­diam, ao que An­tónio de Faria, pon­do os ol­hos no céu e aper­tan­do as mãos, disse al­to, que to­dos o ou­vi­ram: 

  -Sen­hor Je­sus Cristo, as­sim co­mo tu meu Deus, por tua mis­er­icór­dia tomaste so­bre ti sat­is­faz­er na Cruz pe­los pecadores, as­sim te peço por quem és, que per­mi­tas por cas­ti­go da tua div­ina justiça que eu só pague as ofen­sas que estes home­ns te fiz­er­am, pois eu fui a prin­ci­pal causa de eles pecarem con­tra a tua div­ina bon­dade, porque senão, ve­jam nes­ta triste noite a maneira em que eu por meus peca­dos ago­ra me ve­jo, pe­lo que, Sen­hor, te peço com dor da min­ha al­ma, em nome de to­dos, ain­da que não se­ja dig­no de me ou­vires, que tires os ol­hos de mim e os pon­has em ti e no muito que te custá­mos to­dos por tua in­fini­ta mis­er­icór­dia. 

  Após es­tas palavras, de­ram to­dos uma taman­ha gri­ta de «Sen­hor Deus, mis­er­icór­dia", que não havia homem que não pas­masse de dor e tris­teza. E co­mo o nat­ural de to­dos os home­ns é, em tem­pos semel­hantes, tra­bal­harem para con­ser­var a vi­da, sem a lem­brança de out­ra coisa nen­hu­ma, era taman­ho' o de­se­jo que to­dos tin­ham da sal­vação, que não procu­ravam mais do que os meios que para is­so po­di­am ter, pe­lo que, es­que­ci­da de to­do a co­biça, se tra­tou lo­go com to­da a presteza de al­ijar a fazen­da ao mar, e saltan­do em baixo no porão, cer­ca de cem home­ns, tan­to por­tugue­ses co­mo es­cravos e mar­in­heiros, em menos de uma ho­ra foi tu­do lança­do ao mar, de maneira que nen­hu­ma coisa fi­cou a que se pudesse pôr nome, que pe­los bor­dos não fos­se fo­ra, e foi tão ex­ces­si­vo o de­sati­no destes home­ns que até de doze caixões cheios de bar­ras de pra­ta que na briga pas­sa­da se havi­am toma­do a Co­ja Acém, nen­hum fi­cou que tam­bém não fos­se ao mar, sem haver homem de en­tre eles que tivesse acor­do para se lem­brar do que era, fo­ra coisas de mui­ta valia que jun­to com o mais foram por este triste cam­in­ho. 

  Do mais tra­bal­ho e peri­go 

  em que no vi­mos 

  e do so­cor­ro que tive­mos 

  Pas­san­do as­sim to­da aque­la noite nus e descalços e es­calavra­dos, e quase es­bo­fa­dos do grande tra­bal­ho que tín