Title: Gente da Terceira Classe
Author: José Rodrigues Miguéis
CreationDate: Fri Jun 26 11:29:00 BST 2009
ModificationDate: Tue Sep 01 02:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Gente da Ter­ceira Classe

  José Ro­drigues Miguéis

  A pub­li­cação dos con­tos Gente da Ter­ceira Classe e O Vi­ajante Clan­des­ti­no, ex­traí­dos do livro Gente da Ter­ceira Classe, ed­ita­do pela Ed­ito­ri­al Es­tam­pa, foi gen­til­mente au­tor­iza­da por es­ta Ed­ito­ra e por Cami­la Ro­drigues Miguéis.

  © 1996, Cami­la Ro­drigues Miguéis e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-42-1

  Lis­boa, Setem­bro de 1996

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  GENTE DA TER­CEIRA CLASSE

  (Jor­nal de bor­do - 1935)

  Des­ta vi­agem no vel­ho Ar­lan­za até Sou't'n vou guardar uma in­delév­el memória. Deixo no cais o pun­hado de ami­gos que ten­ho, e que o tem­po e a dis­tân­cia provavel­mente irão re­duzin­do e es­ba­ten­do até ao es­quec­imen­to. Não vai comi­go a bor­do ninguém que me pos­sa aju­dar a aten­uar, pe­lo con­vívio, a cha­ga dos prob­le­mas que me fi­cam no ras­to, nem a solver o enig­ma que do out­ro la­do do Atlân­ti­co me es­pera. A vi­da é uma cadeia de es­fin­ges ir­re­spondíveis, e é pre­ciso cor­rer ao lon­go de­las, avançar sem­pre, acred­itan­do que ex­iste al­gures a solução... A solidão faz-​me sofr­er: aten­ua-​a porém o in­ter­esse que me des­per­tam os com­pan­heiros de vi­agem -talvez de­vesse antes diz­er, de in­fortúnio. Com eles de­pres­sa es­queço, ou quase, o que me dói. 

  É pre­ciso ter vi­aja­do num destes transatlân­ti­cos para se faz­er uma ideia das fron­teiras que sep­aram os home­ns e as class­es, mes­mo den­tro du­ma cas­ca de noz. E so­mos poucos, aqui, não mais de cin­quen­ta: que faria se fôsse­mos os duzen­tos ou qua­tro­cen­tos da lotação, só Deus sabe, amon­toa­dos na imun­da ga­faria que é a ter­ceira dos em­igrantes. 

  O Ar­lan­za re­gres­sa da Améri­ca do Sul a Southamp­ton, na Inglater­ra, com es­cala na Madeira, em Lis­boa, na Corun­ha e em Cher­bur­go, car­regan­do no bo­jo mer­cenário um pun­hado de vi­ajantes da cas­ta de to­das a mais triste: os de tor­na-​vi­agem. Os que um dia dis­tante par­ti­ram num porão, e, cor­ri­dos anos, voltam à ter­ra que lh­es foi berço, no âma­go dum sepul­cro flu­tu­ante que um vet­er­inário teria con­de­na­do co­mo im­próprio para o ga­do de açougue. Ao par­tir, lev­avam con­si­go ao menos uma es­per­ança: ago­ra nem is­so lh­es res­ta. Muitos de­les, com o son­ho, seu úni­co luxo, perder­am por lá a saúde e a força de tra­bal­ho, que era to­da a sua riqueza. 

  Com estes, os de tor­na-​vi­agem, em­bar­caram na Madeira e ago­ra comi­go, em Lis­boa, al­guns por­tugue­ses que vão, co­mo eu, à Inglater­ra tomar o pa­que­te para os Es­ta­dos Unidos. As­sim se jun­tam aqui, em­bo­ra com des­ti­nos e em es­ta­dos de al­ma opos­tos, duas cor­rentes da mes­ma mis­éria: uma de­las, ain­da quente do sol da ilusão, parte para as zonas mais tem­per­adas e prósperas do Leste amer­icano; a out­ra re­gres­sa lá do equador e do trópi­co, fria de de­sapon­ta­men­to, amo­lam­ba­da e es­cro­fu­losa, para se dis­per­sar por to­dos os can­tos deste nos­so mun­do cristão e oci­den­tal. Cor­rentes hu­manas, num in­qui­eto e per­pé­tuo cor­ro­pio em torno destoutro mar de Sar­gaços, a vi­da. 

  En­quan­to du­ra o sol da cos­ta por­tugue­sa, tu­do vai bem: mas lo­go que pas­samos as al­turas de Leixões, chove, es­tá frio (em Jul­ho!), e a maio­ria dos vi­ajantes, vin­dos de cli­mas mais be­nig­nos, al­guns doentes, somem-​se nas pro­fun­dezas cav­er­nosas do navio, onde reinam to­dos os cheiros in­imi­gos do homem, en­tran­hados e