m vinte anos de uso pe­los de­jec­tos da raça: suores de po­bres, comezaina en­joa­ti­va, cre­oli­na, vómi­tos, uri­na der­ra­ma­da. O mau tem­po agra­va a mono­to­nia da jor­na­da. 

  É quase im­pos­sív­el passear no deck da ter­ceira à popa, de­scober­to, acan­hado e var­ri­do da ven­ta­nia, bati­do de chu­va, bor­ri­fa­do pe­los es­car­ros pul­ver­iza­dos do Atlân­ti­co, e ain­da por cima atra­van­ca­do de mer­cado­rias e baga­gens po­bres. Al­iás, o bal­anço ameaça baldear-​nos bor­da fo­ra. Só um ir­landês, supon­ho eu, ma­gro e cal­ado, vesti­do de gan­ga, pas­seia ob­sti­nada­mente, ho­ras a fio co­mo um dana­do, de mãos nos bol­sos e cachim­bo nos dentes. Parece em­pen­hado em faz­er o per­cur­so pedestre de Lis­boa a Southamp­ton. De vez em quan­do pára, ol­ha um mo­men­to as on­das grisal­has, tira o cachim­bo da bo­ca e cospe para o mar com uma es­pé­cie de rai­va... Reparo que lhe fal­tam al­guns de­dos da mão di­re­ita. So­mos com­peti­dores, e a ca­da vol­ta que dou es­bar­ro com ele, en­col­ho-​me, e ele resmunga, con­trari­ado. 

  De­se­jaria fu­gir daqui, mas uma cor­da atrav­es­sa­da no con­vés sep­ara co­mo uma fron­teira o ga­do hu­mano e o mun­do dos home­ns, onde há luz eléc­tri­ca a jor­ros, tilin­tam co­pos e rangem vi­oli­nos. Ate­moriza­do com a imo­bil­idade a que, du­rante três dias e três noites, me vai con­denar a es­cassez de es­paço vi­tal, a mim, an­dar­il­ho de nascença, im­pe­di­do de an­dar pe­lo ir­landês da mara­tona, diri­jo-​me a um stew­ard im­berbe e di­go-​lhe no meu mau in­glês, que ele en­tende de resto muito bem: 

  -Onde é que eu pos­so passear a bor­do? Aqui não há lu­gar nem para es­ticar as per­nas. 

  Ele ol­ha-​me cortes­mente na fa­tio­ta no­va, com­pra­da para a jor­na­da, e diz: 

  -Oh, o sen­hor pode passear onde quis­er. Is­to aqui acres­cen­ta com um jeito des­den­hoso -é só para es­pan­hóis e por­tugue­ses! 

  Supõe-​me com certeza pas­sageiro de out­ra classe. 

  Ir­ri­to-​me: 

  -Obri­ga­do. Eu tam­bém sou por­tuguês! 

  Ouço o la­caio mur­mu­rar, per­fi­la­do atrás de mim: 

  -I'm sor­ry, sir! 

  Volto para jun­to dos gale­gos que bail­am, em baixo, ao som da muin­heira triste, sal­van­do à ter­ra na­tal que se aprox­ima, e dos por­tugue­ses que partem comi­go, dos sírios e po­la­cos -doentes, po­bres, amar­fan­hados -que re­gres­sam do El­do­ra­do e do son­ho: para o cheiro dos vómi­tos, da mal­ta, da cre­oli­na. Nun­ca me sen­ti tão per­to de to­dos eles, tão solidário com to­dos, nem tão longe do mun­do hos­til e es­tran­ho lá de cima. É deste que eu fu­jo, é para eles que cor­ro... (Começo a com­preen­der, com es­pan­to, o que me move: um de­se­jo de iden­ti­fi­cação com os hu­mildes deste mun­do...) For Span­ish and Por­tuguese peo­ple on­ly: tão cer­to é que o prestí­gio e a grandeza dum im­pério re­ful­gem mes­mo na al­ma do úl­ti­mo dos seus la­caios. 

  Deita­do na ca­ma mis­eráv­el, tran­si­do de frio de­baixo da man­ta de pre­sidiário que, se me co­bre os om­bros, me deixa os pés desabri­ga­dos, ora gela­do ora su­fo­ca­do de calor, es­cu­to as con­vul­sões da hélice que saco­dem pa­vorosa­mente a ré, quan­do a larga on­du­lação do mar a deixa a de­scober­to, e ol­ho através da vi­gia tur­va os va­gal­hões verde-​gris do mar, ira­dos, crista­dos de es­puma, e ran­jo os dentes -tin­ha que haver o in­evitáv­el ranger de dentes! - repetindo comi­go mes­mo a frase do stew­ard. Pi­ratas! 

  Os bal­anços do navio mal lota­do fazem-​me an­dar as vísceras num badanal. Umas vezes ten­ho a im­pressão de que es­tô­ma­go e fí­ga­do, de­spe­ga­dos, feitos nu­ma bo­la amachu­ca­da, se pre­cipi­tam para o baixo-​ven­tre; out