 con­ta al­gu­mas... É que os padres têm so­bre eles a su­pe­ri­or­idade mis­te­riosa de uma au­tori­dade que não vem do din­heiro, mas do In­efáv­el, do La­tim e do celi­ba­to, e lh­es atrai a clien­tela fem­ini­na. 

  É di­ante destes que eu às vezes per­gun­to, an­gus­ti­ado, se o Po­vo ex­iste, se ele ain­da ex­iste. Tu­do o que ne­les era gros­seiro e boçal se agravou e acen­tu­ou na bru­tal­idade do am­bi­ente que en­con­traram; e na­da gan­haram dos val­ores es­pir­itu­ais que a Améri­ca tem para ofer­ecer-​lh­es, Por quan­to mais tem­po é que os sim­ples e os pri­va­dos con­tin­uarão a con­fundir cul­tura com os val­ores pu­ra­mente ma­te­ri­ais, de aquisição? Quan­do apren­derão eles que, sem o es­píri­to, sem os princí­pios, tu­do o mais é caos? Na sua idol­atria das Coisas (que não é só de­les, pois a apren­der­am com os seus Amos) per­manecem retró­gra­dos e de es­píri­to tacan­ho, Os ob­jec­tos, por en­quan­to, se el­evam o homem, ain­da o não lib­er­tam ao con­trário…Não é que só o sofri­men­to nem só a hu­mil­dade me atra­iam, nem que to­do o êx­ito vul­gar me se­ja re­pug­nante: o tem­po me en­si­nará a amar aque­les mes­mos que, em tu­do a mim aves­sos, rev­elam uma vi­tal­idade, uma en­er­gia e ca­paci­dade de so­bre­vivên­cia con­tra to­dos os azares, que me fazem orgul­hoso de per­tencer à mes­ma grei. Não so­mos to­dos fil­hos da mes­ma an­ces­tral pri­vação? É mais difí­cil amar os home­ns nos seus de­feitos e fraque­zas, do que nas suas, al­iás hipotéti­cas, vir­tudes", Não, o que nestes me ofende e me im­preg­na de­sagra­dav­el­mente, co­mo uma fí­fia ou uma nó­doa de gor­du­ra, é a mediocridade atroz e sem carác­ter de que eles são parte e es­pal­ham em vol­ta de si. São os as­pi­rantes ao poder do din­heiro, que vêem neste a mo­la re­al, o pri­mum movens de to­do o pro­gres­so, e do seu próprio, lamen­táv­el tri­un­fo! 

  Fe­liz­mente, há out­ros... Es­ta vel­ho­ta to­da de ne­gro, xaile e lenço, que tem gemi­do quase sem ces­sar, limpan­do os beiços gre­ta­dos, nun­ca na sua vi­da tin­ha vis­to o mar. Vem lá de cima das ban­das de Mon­tale­gre, da ser­ra de Larouco. É al­ta, de bus­to di­re­ito, com a dig­nidade de porte tão co­mum en­tre as mul­heres do nos­so po­vo, quan­do, já maduras e cur­tidas por to­das as dores e tra­bal­hos da vi­da, pare­cem rete­sar-​se para re­si­stir mel­hor, co­mo o car­val­ho, aos der­radeiros ven­davais. Os ol­hos claros, o ca­be­lo rig­orosa­mente aparta­do ao meio, tu­do nela me faz lem­brar a mãe de um queri­do ami­go meu, que de­pois de o ter per­di­do pare­cia a en­car­nação da ro­bustez na dor. Não deixa ninguém na ter­ra, só mor­tos e recor­dações, e vai para a Améri­ca jun­tar-​se a uma fil­ha casa­da que lá es­tá. Co­mo quem vai de ro­maria, traz um cabaz at­es­ta­do de vi­tu­al­has: o capão as­sa­do, a broa, o quei­jo, as laran­jas, não sei quan­to mais, tu­do fres­co e apetecív­el, que ofer­ece aos com­pan­heiros de vi­agem, aos meni­nos doentes, es­pan­ta­dos e co­biçosos. Ela não come, geme, vom­ita e es­car­ra com um re­al­is­mo dig­no de Gil Vi­cente ou de Brueghel: «Ai-​Je­sus, quem tal me dis­sera! Is­to será as­sim até lá? Dizem que para as ban­das da Améri­ca in­da é pi­or... Maria San­tís­si­ma, que não chego lá com vi­da!.. 

  Os home­ns riem-​se, cíni­cos, ten­tam con­solá-​la com palavras que a não con­vencem: «Is­so pas­sa, tiaz­in­ha!.. Ela arre­da-​os com um gesto. Ca­da um sabe o que sofre. Ninguém a bor­do tem remé­dio para a sua aflição. O ca­so é que não come du­rante to­da a vi­agem, três dias a Southamp­ton. Mas não perde a com­pos­tu­ra nem o in­ter­esse pe­los out­ros: «Tra­go ali umas laran­jin­has, talvez