 vosse­mecê comesse uma?.. diz-​me ela. «Nem sei pra que as troixe!.. Imag­ina­va talvez a jor­na­da co­mo uma salta­da a Vi­la Re­al. Só de pen­sar na co­mi­da vêm-​lhe vómi­tos. «Ele a Améri­ca ain­da fi­cará muito longe?» Tor­na a ar­ro­tar a vazio e ben­ze-​se. Tu­do is­to com uma dig­nidade de no­breza. O mal dela é a solidão, o ir-​se pe­lo mun­do aos se­ten­ta e pi­co, para prin­cip­iar de no­vo. 

  -Ele por lá, que lín­gua é que falam? Ca­pazes de nem me en­ten­derem! 

  -A sua fil­ha vai es­tar no cais à sua es­pera. Não se rale. 

  -Ela mo­ra lá pràs ban­das da Prov­idença: sabe adonde é? 

  -Não lhe vai fal­tar na­da, santin­ha. 

  -Se não me der bem, volto pe­lo mes­mo cam­in­ho... 

  Es­tou a vê-​la que chega a Prov­idence ou Paw­tuck­et, e en­tre­ga a canas­trin­ha à fil­ha: «Pe­ga lá, que es­tas são da nos­sa ter­ra...» Talvez por is­so ninguém aceite o que ela ofer­ece. 

  Quem não gos­ta das ane­do­tas de padres é a mul­herz­in­ha da Mur­tosa que nos acom­pan­ha: protes­ta, man­da-​os calar, e até deixou de falar com o das pru­pi­adades, fu­riosa com o «der­re­speito». Traz con­si­go dois garo­tos que não lhe per­tencem, diz ela, co­mo se is­to de cri­anças fos­sem coisas que tivessem de «per­tencer» sem­pre a al­guém. Vai en­tregá-​los a uma família de Low­ell, se bem na en­ten­do. E co­mo eles são ale­gres, cu­riosos e ir­re­qui­etos (e quem o não se­ria, daque­la idade, a bor­do dum grande pa­que­te, e com semel­hante tu­to­ra!), tra­ta-​os com ex­em­plar as­pereza: «Demónios! Cor­ja de canal­ha, mal-​in­du­ca­dos, mà-​rais os par­ti­ra!» Chega-​lh­es tabefes, dá-​lh­es safanões, prom­ete-​lh­es cas­ti­gos medonhos em chegan­do à Améri­ca, co­mo se a ter­ra de Lin­coln e Whit­man fos­se o Pur­gatório. Mas os dois meni­nos, de ol­ho trocista e es­per­to, não pare­cem tomá-​la a sério nem gan­har-​lhe re­speito, a não ser talvez o da hipocrisia, des­graça­da es­co­la. E con­tin­uam a faz­er o que lh­es pede a vi­tal­idade. Ela en­tão in­vo­ca o San­to-​Nome-​de-​Deus em vão, com um bril­ho in­fan­ti­ci­da nos ol­hos pre­tos e duros co­mo con­tas de vidro. Começo a achá-​la pare­ci­da com a tur­ca: em pi­or. 

  A boa mãe madeirense, es­sa é cal­ma e tol­er­ante. Tem uma crença el­emen­tar em Deus, e acha que «os padres são pre­cisos», em­bo­ra não sai­ba porquê: «En­tão quem é que nos haveia de casar? e en­comen­dar?» Tu­do neste mun­do e no out­ro tem a sua jer­ar­quia. E sor­ri com bon­dade e de­fer­ên­cia. A vel­ho­ta de Trás-​os-​Montes, dis­traí­da com a con­ver­sa, sente-​se alivi­ada do en­joo e já se ri para a da Mur­tosa: «Deixe-​os lá falar, sen­ho­ra! São home­ns, gostam de rir! A sen­ho­ra não sabe que os home­ns não querem na­da com padres?»

  - E não! -diz lo­go o das pru­pi­adades, al­var. -Com home­ns de sa­ias eu cá não quero na­da! Ago­ra com mul­heres... 

  A da Mur­tosa faz-​lhe fi­gas, e afas­ta-​se para ver que «ju­di­arias» an­darão a faz­er os dois pupi­los. Tem por força que ser «ju­di­arias». Há-​de haver um cas­ti­go! Mas sur­preen­do-​a daí a pouco a ol­har dis­farçada­mente o an­tag­onista com um ol­har de va­ca em cio. Quer talvez con­vertê-​lo por artes menos canóni­cas. É das que só se ren­dem a quem as sub­ju­ga e amachu­ca. Solteirona e se­ca, no fun­do é da raça dele. 

  E o tem­po corre nes­ta con­ver­sa pe­gan­hen­ta...

  Vou en­con­trar a maio­ria destes com­pa­tri­otas em Southamp­ton, es­pal­ha­dos por hospedarias man­hosas, à con­ta das em­pre­sas de nave­gação ou dos agentes de vi­agens. To­dos eles com ban­deir­in­has na lapela ou no peito da blusa, para se não tres­mal­harem nem con­fundi­rem, co