rompem no es­curo os doira­dos clarões da fes­ta; lá den­tro, há sem­pre o mes­mo en­tu­si­as­mo e a mes­ma gu­la pe­los pre­sentes do San­ta Klaus, em­pil­ha­dos em torno da ár­vore ful­gu­rante de luzes, nas suas em­bal­agens de luxo e fan­ta­sia. E o vi­ajante solitário e sem família que pas­sa na estra­da pode en­tr­ev­er com melan­co­lia os pares que dançam, ou os ros­tos sa­ci­ados e fe­lizes em vol­ta da mesa bem guarneci­da, a que pre­side um gor­do e tosta­do pe­ru. O Na­tal fi­ca domés­ti­co e recol­hi­do, e perde a ale­gria pagã que ecoa de risos e ape­los ju­ve­nis nos bosques e nos vales. Não, um Na­tal sem neve, um Na­tal que não se­ja «bran­co», não é fes­ta nem é na­da: parece um Thanks­giv­ing que se atra­sou no cal­endário. 

  Ora is­to deu-​se (ou mel­hor, começou) em Bal­ti­more, que é uma cidade al­go som­bria, paca­ta e or­deira, em­bo­ra muito menos triste do que a vi­sionou o nos­so Po­eta – «cidade triste en­tre as tristes, ó Bal­ti­more!» Ou talvez as sine­tas das lo­co­mo­ti­vas ten­ham es­que­ci­do a ri­ma do sin­istro Nev­er more, nev­er more, que ele jul­gou ou­vi-​los cla­mar, ecoan­do o Poe. É pre­ciso sair do cen­tro, e per­cor­rer os sub­úr­bios, para se en­con­trar a at­mos­fera própria da «es­tação fes­ti­va». Quan­to aos cais, são so­turnos, caóti­cos, con­fu­sos, e aqui e além ameaçam ruí­na os hangares e bar­racões grisal­hos, co­mo vel­hos par­dieiros ou igre­jas rús­ti­cas aban­don­adas. São tão tristes os por­tos deca­dentes, so­bre­tu­do de noite e nas épocas de crise! Mas res­pi­ra-​se uma poe­sia sug­es­ti­va nestes mol­hes de es­tacaria limosa e ne­gra, onde as marés, cansadas e oleosas, vêm bater de man­so o rit­mo da sua canção de amor à ter­ra. Há cidades que pare­cem viv­er na in­tim­idade dos dra­mas e seg­re­dos do mar; onde este es­tá sem­pre pre­sente, em con­vívio com os home­ns. E na­da fala tan­to ao coração do er­rante solitário, co­mo este ape­lo eter­no do mar, jun­to aos cais. 

  Foi a um destes mol­hes meio es­bar­ronda­dos que o navio atra­cou pela man­hã de vinte e qua­tro de Dezem­bro, vin­do do mar aber­to e azul, da África e dos trópi­cos. Era um vel­ho car­gueiro es­gal­ga­do, de al­ta cham­iné en­far­rus­ca­da, com grandes re­men­dos no cas­co a des­faz­er-​se em fer­rugem, e a lin­ha de flu­tu­ação muitos pal­mos aci­ma das on­das: uma dessas ruí­nas ob­scuras que sin­gram va­garosa­mente os sete mares do mun­do, cox­ean­do em bus­ca de freguês, com roupas mal lavadas a enx­ugar pe­los cor­dames, e al­guns maru­jos es­quáli­dos aco­tove­la­dos às amu­radas, a ol­har a ter­ra es­tran­ha. Um navio, em suma, que po­dia ter in­spi­ra­do um con­to triste a Joseph Con­rad ou a Pierre Mac Or­lan.

  A sua car­ga era po­bre e vari­ada: óleo de pal­ma, co­cos, ba­nanas verdes em começo de pu­tre­facção, amen­doim, duas dúzias de far­dos de al­go­dão, e um maca­co mais ou menos do­mes­ti­ca­do, que adoe­cera em vi­agem e gemia nu­ma ca­ma de tra­pos, com febre, queixoso da in­ver­nia.

  Tam­bém vin­ha a bor­do um pas­sageiro, um só, de que não rezavam os livros de nave­gação e que não pa­gara a pas­sagem, en­tregue ao cuida­do cúm­plice de dois mar­in­heiros: es­con­di­do nas en­tran­has geme­bun­das do cal­ham­beque, num cubícu­lo sem ar nem luz, jun­to das car­voeiras, na com­pan­hia das ratazanas. Quem era e donde vin­ha ele? Ah, mas são per­gun­tas, es­sas, que se não fazem nun­ca a um destes home­ns ma­gros, de ros­to antes do tem­po en­gel­ha­do pe­los tra­bal­hos, as pri­vações e os ven­tos forasteiros, com os ol­hos ne­gros a luzir som­bri­amente de me­do e de­scon­fi­ança no fun­do das ór­bitas en­co­vadas. Viria de Mar­ro­cos, val­ha­couto de tan­to