s des­graça­dos? das Il­has Per­fumadas? da Cos­ta d'África? Ninguém o diria, nem que o soubesse, e ele menos que ninguém. A ile­gal­idade tem as suas leis, a sua moral e as suas com­bines, e o silên­cio é a re­gra de ouro dos po­bres deste mun­do. Quem o pusera a bor­do? Quem o mantin­ha e sus­ten­ta­va ali, du­rante a noite, em seg­re­do, com os restos mis­eráveis do ran­cho da trip­ulação meio an­dra­josa? -Mis­tério, mis­tério! A sol­idariedade é out­ra lei sagra­da en­tre os home­ns que vivem à margem da vi­da. 

  Tin­ha em­bar­ca­do pela cal­ada da noite nal­gum por­to des­ola­do das Áfric­as ou dos Ar­quipéla­gos, e é tu­do. Al­guém o tin­ha guia­do em silên­cio no labir­in­to resso­nante do car­gueiro, e ali o deixara co­mo um ra­to de porão. E ali, na som­bra su­fo­cante, tin­ha trans­pos­to as clar­idades sem lim­ites do oceano trop­ical, para dar en­tra­da no In­ver­no amer­icano. 

  O Maria Al­ber­ta -chamem­os-​lhe as­sim, es­con­den­do-​lhe o nome ver­dadeiro e a ma­trícu­la –, cumpri­das as for­mal­idades da lei, de­spe­jou no cais de­ser­to e cinzen­to a es­cas­sa mer­cado­ria. Os guin­dastes e cabrestantes ranger­am, as roldanas guin­charam nos cader­nais, os bo­talós de­screver­am no ar baço a sua in­cer­ta ac­roba­cia, e os far­dos, caixotes e engrada­dos de­ram en­tra­da nos hangares var­ri­dos de ven­ta­nia. A noite chegou ce­do, e tu­do re­caiu no silên­cio. Os guardas e fun­cionários do cais foram-​se quase to­dos em­bo­ra, e o Maria Al­ber­ta sum­iu-​se no es­quec­imen­to e na ob­scuri­dade, co­mo um cav­alo cansa­do e lazar­en­to ao fun­do du­ma es­tre­baria. 

  Era a véspera de Na­tal, e ca­da qual procurou o seu conchego, a família se a tin­ha, ou o re­can­to en­fu­mara­do dum bar de tec­tos baixos, com mul­heres es­grou­vin­hadas e de­scol­ori­das sob a maquil­hagem, a be­ber­ricar whisky de má raça e a me­ter moedas num juke-​box trep­idante de melo­dias quentes e en­so­laradas, de Cal­ifór­nias e co­queirais que só ex­is­tem no son­ho e no celulóide. Para os home­ns que raste­jam à su­per­fí­cie do globo e da vi­da, de por­to em por­to co­mo se pá­tria nen­hu­ma os aceitasse, não há out­ro re­fú­gio senão esse: e no fim, uma ca­ma de aluguer e uns braços de em­prés­ti­mo. 

  O silên­cio es­cor­reu so­bre os mol­hes e hangares, raras luzes bril­havam, pou­cas con­seguiam vencer a es­pes­sura da névoa a des­faz­er-​se em chu­va. Os mas­tros dos car­gueiros atra­ca­dos em feix­es per­diam-​se no céu en­car­voa­do. Mas a nebli­na cria sem­pre, em vol­ta dos por­tos, um man­to de abri­go e clan­des­tinidade. 

  O capitão de­sem­bar­cou, à paisana, e foi à sua vi­da: tin­ha uns negó­cios quais­quer a tratar em Fi­ladél­fia. Atrás dele foi-​se o ime­di­ato, de­pois al­guns ofi­ci­ais e pi­lo­tos, o en­fer­meiro, e até mar­in­heiros. Al­guns destes lev­avam uma gar­ra fi­ta du­ma aguardente in­tragáv­el, a que chamavam brandy, com que es­per­avam lu­bri­ficar a boa von­tade dos fun­cionários da Alfân­de­ga, de mo­do a pas­sarem sem a apal­pação da or­dem nem a in­specção aos em­brul­hos. 

  Os fun­cionários, quase to­dos ir­lan­deses, nu­tri­dos, bem pa­gos e agasal­ha­dos nos seus quentes e ma­cios uni­formes, ol­havam com um mis­to de dó e es­pan­to ou iro­nia aque­les po­bres marí­ti­mos ma­grize­las e mal bar­bea­dos, que tir­itavam den­tro das farpelas de gan­ga ou co­tim des­bo­ta­do, com re­men­dos, raros de­les en­ver­gan­do um ja­que­tão ra­zoavel­mente coça­do, e com a gor­ra de mal­ha ou boina bas­ca na cabeça. Que di­acho de can­don­ga é que eles po­di­am trans­portar? Nen­hum trazia com certeza ouro, dia­mantes ou co­ca... Aceitavam a gar­ra fi­ta e deix­avam-​nos pas­sar: «