ra­bal­har. E se o oiro não an­da­va ago­ra a pon­tapés, quem cam­in­has­se de ol­hos no chão ain­da po­dia topar aqui e ali com al­gum pen­ny per­di­do -as­sim tin­ha ou­vi­do diz­er a um tran­gal­hadanças dum alemão que da Améri­ca voltara com dois pat­acos, e ele con­hecera al­gures. A len­da do No­vo Mun­do ain­da não tin­ha mor­ri­do no coração, ou se­ria no es­tô­ma­go? dos home­ns. Para al­cançá-​lo, tomara pe­lo cam­in­ho mais cur­to, que é quase sem­pre o mais ar­risca­do: a clan­des­tinidade. As­sim viera me­ter-​se a bor­do deste car­gueiro de má-​morte, um cal­ham­beque a des­faz­er-​se em fer­rugem, as­máti­co e clau­di­cante. 

  O tem­po cor­reu e ele dor­mi­tou. De re­pente acor­dou so­bres­salta­do, e en­clav­in­hou as mãos no saco. Uma voz rou­ca seg­re­da­va-​lhe ao ou­vi­do: 

  -Salte cá pra fo­ra, seu Tomé! 

  A clarabóia es­ta­va lev­an­ta­da. Atirou com as per­nas en­tan­guidas para fo­ra do es­quife, mas quan­do se quis pôr em pé elas re­cusaram-​se a aguen­tá-​lo; doía-​lhe a bar­ri­ga, tin­ha a bex­iga a reben­tar e uma sede de morte. 

  -Não me pos­so mex­er! 

  O maru­jo mur­murou qual­quer coisa que ele não ou­viu bem, uma pra­ga com certeza, e pôs-​se a es­fre­gar-​lhe com vig­or as costas, as per­nas e os braços. 

  -Be­ba lá um gole de cachaça. Aqui é que vosse­mecê não pode ficar. Ve­ja se se despacha, temos que aproveitar es­ta aber­ta, en­quan­to não an­da nen­hum guar­da no cais. 

  Be­beu, sen­tiu um pouco de vi­da voltar-​lhe aos mem­bros, e pôde en­fim an­dar. Foi vert­er águas jun­to dum tur­co dos sal­va-​vi­das. O out­ro fu­ma­va, im­pa­ciente, es­con­den­do a brasa do cigar­ro na con­cha da mão more­na.

  -Pegue lá uma bucha prà vi­age. E ago­ra ten­ha cautela, hã? 

  Palpou o em­brul­ho morno do far­nel que o maru­jo lhe me­teu na mão, e en­cam­in­hou-​se atrás dele para o caste­lo da popa em trevas. Tin­ham re­ti­ra­do a pran­cha, mas nem que ela lá es­tivesse: mes­mo àquela ho­ra adi­anta­da era perigoso de­sem­bar­car a de­scober­to. O que ele tin­ha a faz­er era trans­por a amu­ra­da e de­scer por um cabo de amar­ração, co­mo uma ratazana. 

  Chegara o mo­men­to difí­cil. Mas uma vez no cais, ol­ho atrás ol­ho adi­ante, cosi­do com as som­bras e as pare­des, fazen­do-​se parte de­las, era sumir-​se no de­scon­heci­do e es­ta­va livre. 

  -Meta o far­nel no saco, homem. E pen­dure-​o do pescoço, co­mo é que você quer de­scer as­sim? Não ten­ha me­do, agarre-​se bem e ande prà frente. 

  Tro­caram um aper­to de mão. O clarão frouxo da cidade, a dis­tân­cia, ene­gre­cia mais, por con­traste, as viz­in­hanças. Ajeitou a trouxa ao pescoço, e sen­tiu-​se páli­do. A que al­tura es­tari­am do cais? O maru­jo se­gurou-​o, aju­dou-​o a trans­por a amu­ra­da fria e mol­ha­da, e ele agar­rou-​se à cor­da com força. Ou­viu em cima um mur­múrio: 

  -Boa sorte! Vá com Deus. 

  Fi­cou soz­in­ho, en­can­gon­cha­do no grosso cabo, áspero e en­char­ca­do. Al­guns met­ros abaixo dele, in­visív­el, era o cais, a ter­ra firme, a liber­dade, o pão amas­sa­do com o suor do seu ros­to. Saberia al­cançá-​lo? Cor­agem! Sim, mas tin­ha o com-​li­cença que não lhe cabia nele uma ag­ul­ha. Era co­mo se es­tivesse en­tre mar e céu, com o Cre­do na bo­ca por to­do am­paro. De­va­gar, com o saco pen­dura­do do pescoço a em­baraçar-​lhe os movi­men­tos, e de per­nas en­sar­il­hadas, deixou-​se es­cor­re­gar. A pal­ma das mãos ar­dia-​lhe nas as­perezas do cabo. O pe­so do cor­po pux­ava-​o para o la­do in­fe­ri­or, mas ele era ma­gro e lá con­seguiu re­si­stir à gravi­dade e man­ter-​se equi­li­bra­do a cav­alo na amar­ra. 

  Di­ante dos ol­hos s