ó tin­ha ago­ra o cas­co ne­gro do navio, que não con­seguia des­fi­tar, co­mo se a ele se quisesse pren­der pe­lo mag­netismo da vista. A água c1apota­va con­tra a es­tacaria, que ran­gia bran­da­mente. Aque­la água era ago­ra o seu ter­ror, e talvez viesse a ser o seu tú­mu­lo. Se a ol­has­se po­dia-​lhe dar ur­na ver­tigem, e en­tão…

  Pela posição e bal­anço mais am­plo do cabo perce­beu que ia a meio cam­in­ho. Mas nem po­dia ol­har para trás, nem via um pal­mo adi­ante do nar­iz, além do ne­grume do cas­co. Deixou-​se es­cor­re­gar mais um pedaço, com di­fi­cul­dade, porque o cabo se aprox­ima­va da hor­izon­tal, e, se­gu­ran­do-​se com firmeza, soltou e ag­itou uma per­na, à procu­ra de con­tac­to com a ter­ra. Mas es­ta de­via es­tar ain­da fo­ra do seu al­cance. Des­can­sou um mi­gal­ho. O suor es­cor­ria-​lhe na cara e no pescoço, en­char­ca­va-​lhe as costas. Se ago­ra caísse, era ver­dadeira­mente um homem ao mal': ninguém da­va por is­so, e que dessem -de bor­do ninguém lhe acu­dia. Nem do cais de­ser­to. No dia seguinte, ou só Deus sabe quan­do, o cadáver se­ria pesca­do, meio roí­do dos peix­es e dos carangue­jos, ou in­cha­do e fe­doren­to, a es­cor­rer água e lo­do. Se o fos­se!, porque tam­bém po­dia ir pe­lo mar abaixo... Se­ria mais um de­sa­pare­ci­do, ou um cadáver anón­imo, sem par­entes, ami­gos nem con­heci­dos que o viessem iden­ti­ficar e recla­mar. Longe, a família, à qual não es­crevera em dois anos, con­tin­uar­ia por mais al­gum tem­po à es­pera dele, ou de notí­cias; mas acabaria por es­quecê-​lo. Quan­to aos des­ti­natários, lá em cas­cos de rol­ha, que lh­es im­por­ta­va? Nem se­quer o con­heci­am. O co­men­tário in­difer­ente – «Aqui­lo, se cal­har o homem nem chegou a em­bar­car!» -se­ria to­do o seu re­spon­so e epitá­fio. Es­que­ci­do. Era co­mo se a mãe nun­ca o tivesse da­do à luz.

  Im­peli­do pe­lo súbito ter­ror de não ex­is­tir, es­cor­re­gou mais, tornou a ag­itar a per­na, em vão. Ago­ra o cor­po, na hor­izon­tal, e a os­cilar com a amar­ra, não po­dia ar­ran­car-​se à gravi­dade nem re­co­brar a ver­ti­cal­idade. Ain­da que o pé es­bar­rasse na beira do mol­he, co­mo é que ele ia soltar-​se, dar uma re­vi­ra­vol­ta e um pu­lo, para cair em pé? Nem pen­sar em pen­durar-​se pe­los braços: fi­caria abaixo do nív­el do cais, e en­tão é que não havia es­per­ança. Não ousa­va de­sen­ven­cil­har-​se da es­pia que o pren­dia à ter­ra e à vi­da, para se endi­re­itar e dar um salto. Nem se­quer po­dia vi­rar a cabeça para avaliar a que al­tura se en­con­tra­va. Mais al­guns min­utos, que tan­to lhe du­rari­am as forças, e a que­da era fa­tal. 

  Teve a clara visão do seu es­ta­do -a bo­ca ne­gra da morte à es­pera dele, em baixo, co­mo um tubarão in­saciáv­el -e in­ti­ma­mente amaldiçoou a ho­ra em que lhe de­ra para se me­ter nes­tas an­danças: se não era maru­jo, não sabia trepar uma cor­da nem sabia nadar! Sus­pen­so en­tre dois nadas. 

  En­col­heu-​se to­do e, com um es­forço de­ses­per­ado, con­seguiu deslizar mais um pouco: o pé to­cou por fim na beira do mol­he, e um bafo de lume veio-​lhe dele, subiu-​lhe os mem­bros, re­an­imou-​o co­mo um calor de ressur­reição. O cais, mol­ha­do e es­cor­re­ga­dio, es­ta­va ao seu al­cance! Mas por baixo era ain­da o abis­mo de água. En­cav­al­ita­do na amar­ra, crispa­do e dori­do, de­sem­baraçou a cus­to a out­ra per­na, e ag­itou-​as am­bas, à procu­ra de apoio. As so­las del­gadas pati­navam na vis­cosi­dade do madeira­men­to gas­to, ou no re­bor­do de aço. Se ten­tasse fir­mar-​se nelas po­dia es­cor­re­gar, perder o su­porte do cabo, e dar o mer­gul­ho defini­ti­vo. A suar em bi­ca, tré­mu­lo do es­forço, fi­