cou min­utos com as per­nas pen­dentes e imóveis. 

  Voltar para cima, nem pen­sar nis­so: já não tin­ha forças para mar­in­har, e que as tivesse, a bor­do não o deixari­am en­trar nem ficar. Ago­ra era re­speitar o con­tra­to, e es­capulir-​se ou mor­rer. Co­mo uma mosca teimosa, que se agi­ta para es­capar à ar­madil­ha, tornou a faz­er es­forços para se apoiar no cais, e soltou uma pra­ga em voz al­ta: 

  -Oh rais ta par­ta a min­ha sorte! 

  Nesse in­stante sen­tiu que al­gu­ma coisa de duro, mão ou tenaz, o agar­ra­va com vi­olên­cia pe­los rins, dan­do-​lhe a sen­sação dum fer­ro em brasa, e teve este pen­sa­men­to de renún­cia: «Es­tou catrafi­la­do!» Mas, é cu­rioso, re­co­brou si­mul­tane­amente a cal­ma e a es­per­ança. 

  O quer que fos­se pux­ou por ele com força, e ele deixou-​se levar pas­si­va­mente, até que, com o cordão do saco a es­trafegá-​lo, con­seguiu endi­re­itar o cor­po e fir­mar-​se nas per­nas bam­bas. Aque­la mão de fer­ro, in­visív­el, ar­repan­ha­va-​lhe as roupas e as carnes, maceran­do-​o e magoan­do-​o. De­pois, com um safanão supre­mo, quase o er­gueu do chão e fê-​lo dar uma re­vi­ra­vol­ta. 

  Levan­tou os ol­hos e viu di­ante de si um grande vul­to ne­gro, um capote de olea­do re­luzente de chu­va, uma far­da com botões de met­al e uma cha­pa cor de pra­ta. O agente de polí­cia in­cli­nou para ele o ros­to ver­mel­ho e ro­bus­to: 

  -Stow­away, eh? -e sacud­iu-​o com en­er­gia, co­mo se o quisesse des­per­tar do tor­por. -Pas­sageiro clan­des­ti­no? repetiu, e riu-​se. -You speak En­glísh? 

  Que pode um homem diz­er em tais cir­cun­stân­cias? Tin­ham-​lhe re­comen­da­do: «Ha­ja o que hou­ver, não abra bi­co. Faça-​se de trouxa.» Mas com aque­la mão bru­tal não se brin­ca­va, e ele re­spon­deu: 

  -Eu não es­pique in­glishe, eu não es­pique!

  O agente largou uma risa­da de go­zo e tornou a sacu­di-​lo: 

  -No eespeek! No eespeek!

  Tin­ha um hál­ito quente, de taba­co e whisky. Na fria hu­mi­dade de Dezem­bro, um homem pre­cisa de al­gu­ma coisa que lhe aque­ça as en­tran­has, para an­dar as­sim de ron­da pe­los cais de­ser­tos, en­tregue aos seus pen­sa­men­tos. De­pois, na noite de fes­ta, de por­ta em por­ta ao lon­go das taber­nas e sa­loons da bor­da-​d'água -Mer­ry Christ­mas, Mack! -, há sem­pre quem ten­ha uma fraque­za com a au­tori­dade, e a gente não é de pau, nem pode faz­er uma des­fei­ta, re­cusar…A ver­dade é que um tra­go ou dois dis­põem muitas vezes um homem a ser mais tol­er­ante com as fraque­zas do próx­imo. 

  Ficaram as­sim um pedaço, frente a frente, ele à es­pera, a con­tar os min­utos de vi­da, e o agente talvez a dar bal­anço à situ­ação, a mac­er­ar-​lhe de­va­gar o om­bro ma­gro na tenaz de fer­ro da manápu­la, e repetindo a meia voz: 

  -No eespeek, no eespeek... 

  Pe­queno co­mo um mur­gan­ho, a tremer de me­do e frio na fa­tio­ta leve, à es­pera da sen­tença -quem sabe até se o guar­da, en­raive­ci­do, não lhe ia dar um em­purrão, atirá-​lo à água? -o pas­sageiro clan­des­ti­no ol­ha­va fix­am­ente os botões da far­da, o cas­setete com­pri­do e poli­do.

  O agente disse ain­da qual­quer coisa que ele não en­ten­deu, e aper­tou-​lhe os om­bros com mais força a tactear-​lhe os os­sos, talvez a en­sa­iar es­ma­gar-​lhos pe­lo sim­ples praz­er de ex­ercer forças naque­la frag­ili­dade. De­pois, de re­pente, obrigou-​o a dar meia vol­ta, de cara à ter­ra, apoiou-​lhe a mão enorme e es­pal­ma­da nas costas, e em­purrou-​o: 

  -Now run! 

  Não pre­cisou de en­ten­der, e cor­reu: cor­reu sem saber aonde ia, nem se o guar­da lhe ia dar um tiro pelas costas co­mo a um ladrão das do­cas que des­obe­dece à or­dem de Al­to!, ou se rea