­ras, pare­cem mar­in­har, pe­ga­dos às costas, à procu­ra da es­cotil­ha da gar­gan­ta. Mas não en­joo: é a ter­ceira vez que cru­zo es­tas par­agens ag­itadas, e nun­ca en­joei. Val­ha-​nos is­so. Levan­to-​me, torno-​me a deitar, faço es­forços para pen­sar, ler, dis­trair-​me, tu­do em vão. H. G. Wells deixou de me in­ter­es­sar des­de que vi que só pos­so en­tendê-​lo à força de di­cionário. E a luz é pés­si­ma, pi­or que o meu in­glês. De­sis­to, mas guar­do a angús­tia da ig­norân­cia. 

  Quan­do o bal­anço se agra­va, ouço gri­tos e gemi­dos de cri­anças e mul­heres. Vin­do das cab­inas viz­in­has, de que me sep­ara um tabique de met­al retic­ula­do, sem ro­dapé, um líqui­do sus­peito es­corre na cor­ticite es­calavra­da do chão, e, com ele, es­pal­ha-​se o cheiro dos vómi­tos e da uri­na. For Span­ish and Por­tuguese peo­ple on­ly... 

  Não há per­to daqui um lu­gar onde a gente sat­is­faça uma ne­ces­si­dade: ten­ho de me ve­stir, sair da cab­ina, mol­har os pés nas es­cor­rên­cias, per­cor­rer uma grande dis­tân­cia, subir e de­scer es­cadas de fer­ro por onde so­pram ven­tos desabri­dos. Pe­los corre­dores e pas­sagens es­bar­ro com gente afli­ta que cam­in­ha aos tom­bos, em ân­sias, agar­ra­da a cor­rimões, a pare­des pe­ga­josas, procu­ran­do alívio. Con­si­go de­sco­brir en­fim o al­vo da min­ha bus­ca, mas sin­to que me de­se­qui­li­bro, foge-​me um chine­lo, e o ven­to, en­tran­do-​me por baixo, es­faque­ia-​me até ao es­tô­ma­go... Volto a cor­rer para a cab­ina. 

  Tin­ham-​me da­do primeiro um ca­marote sem vi­gia, in­te­ri­or, to­do atrav­es­sa­do de canos a es­cal­dar, as­fixi­ante, com um cheiro ir­respiráv­el de pin­tu­ra naval. (Tu­do a bor­do parece revesti­do de mas­sas de tin­ta acu­mu­la­da a ca­da vi­agem.) Co­mo protestei, num in­glês em tu­do dig­no do lu­gar, mu­daram-​me para a cab­ina frígi­da onde ago­ra es­tou, com dois be­lich­es, mas três ca­mas des­ocu­padas, que to­do o tem­po vi­bram com um bate-​dentes de sezões frias. 

  Abor­reci­do, para pas­sar o tem­po, procuro en­treter-​me a lavar os dentes: mas a água tur­va e amarela da gar­rafa, que provém dum pe­queno tanque en­caix­ado na parede, donde sai tam­bém a es­cassez de água em que se la­va a cara, tem um sa­bor de­testáv­el. Re­nun­cio a be­ber, a bochechar, a faz­er a bar­ba. Serei um re­flexo do que me rodeia, pi­or que uma enx­ovia. As coisas sór­di­das re­baix­am o homem, desmor­al­izam-​no... 

  Os stew­ards en­tram sem bater, sem pedir li­cença, sem me di­ri­gir a palavra: co­mo se eu não ex­is­tisse. Fazem a limpeza, as ca­mas, mu­dam a água do tanque na parede. Ros­nam en­tre dentes coisas que eu não en­ten­do. Pare­cem carcereiros, e eu, eu ten­ho a im­pressão de que vou nu­ma le­va de con­de­na­dos... 

  Da cab­ina quase fron­teira à min­ha chega-​me a voz ma­cia da madeirense que vai para os Es­ta­dos Unidos jun­tar-​se ao mari­do, com três fil­hin­hos que mais pare­cem três cordeir­in­hos con­de­na­dos à de­go­la. (É di­ante destes hu­mildes, aban­don­ados de to­da a pro­tecção, que cresce o orgul­ho e o des­dém que os im­périos nos votam.) Sim­páti­ca e bon­dosa cam­pone­sa, a tu­do o que lhe di­go ela re­sponde com um «Yé, meu sen­hor» de cor­tar o coração. Dir-​se-​ia que perdeu a lín­gua ma­ter­na, e ain­da não de­sco­briu a madras­ta. Ol­ha-​me com es­pan­to: será pos­sív­el que eu, um «sen­hor» vá tam­bém para a Amére­ca? Co­mo se a ter­ra da For­tu­na fos­se ape­nas a Meca dos es­fomea­dos... Já lá pas­sou al­guns anos, e lá lhe nasce­ram os dois mais nov­in­hos. O mari­do é tecelão no Bate­fete: «Temos sep­ara­dos há qua­tro anos!» E ela vol­ta para o grande son­