. Tem ciúmes de me ver falar com a dona! 

  Mas ela mal me re­sponde, de ol­hos baixos, no seu fran­ciú de mai­son dose ul­tra­ma­ri­na, onde não chegam ecos dos serviços cul­tur­ais da França no ex­te­ri­or. A questão é que eu não ten­ho com quem falar, e as min­has in­tenções são as mais lisas. A meio da con­ver­sa (tin­ha vi­ra­do a cara, a servir-​me) sur­preen­do o cáften a abrir-​lhe muito os ol­hos e a faz­er-​lhe sinais: deve es­tar a pre­veni-​la con­tra mim, tomam-​me talvez por es­pião, com este nar­iz! O cer­to é que a dona, cu­jas carnes os ol­hos dos out­ros comen­sais apal­pam vo­raz­mente, a da­da al­tura de­sa­parece da mesa, e só vol­ta a sur­gir de longe em longe no deck, com o símio acor­renta­do e um livro na mão, que não lê. «Es­tá en­fer­ma», ex­pli­ca o chu­lo. En­joou a co­mi­da. É uma lás­ti­ma! Não res­ta ago­ra à mesa na­da para que val­ha a pe­na ol­har. 

  Men­ti­ra dele. A cul­pa foi min­ha, que no meu té­dio náu­ti­co teimei em des­per­tar uma chis­pa de es­prit na gelati­na da al­for­reca, ape­sar da hos­til­idade do saguim e do ol­har de­scon­fi­ado do em­presário. Mas a po­bre não tin­ha mes­mo na­da que a aguen­tasse no pa­pel de parisi­enne de ex­por­tação, e, gague­jadas duas fras­es macar­róni­cas, re­solveu bater em re­ti­ra­da. Pas­sa a maior parte do tem­po na cab­ina. O símio, que a de­fende lit­eral­mente com un­has e dentes, lá fi­ca a faz­er-​lhe com­pan­hia. Ao menos, com ele, a po­bre mul­her pode ex­ternar reser­vas de ter­nu­ra que os home­ns a en­si­naram a es­con­der ou dis­farçar. O amor dos an­imais é gra­tu­ito, mas com­pen­sador. En­tre­tan­to o chu­lo, de nar­iz achata­do de boxeur, pas­seia no deck com ar de abor­reci­do, masti­gan­do um pal­ito su­jo, em pant­ufas e de boné de pano pux­ado para os ol­hos, co­mo em casa. 

  De­pois de uma con­ver­sa ha­bil­mente con­duzi­da (ain­da não per­di de to­do o hábito dos in­ter­ro­gatórios!), jun­to da amu­ra­da e de­baixo da ven­ta­nia desabri­da, averiguo que viver­am al­gum tem­po no Sul do Brasil, de onde cer­tas «di­fi­cul­dades» -oh, na­da de ex­traordinário!, apres­sa-​se ele a cor­ri­gir, re­lance­an­do-​me um ol­har in­qui­eto -os levaram a fixar residên­cia no rio da Pra­ta. Que no­vas «di­fi­cul­dades» os fazem re­gres­sar ago­ra, ain­da na flor da idade, à Eu­ropa em começo de crise, não chego a averiguá-​lo. À cautela, ao sep­arar­mo-​nos, apalpo disc­re­ta­mente o bol­so onde le­vo os ma­gros vin­téns...

  En­gaio­la­dos nas pro­fun­dezas da ter­ceira, es­pé­cie de porão com a es­cotil­ha aber­ta ao ven­to e à chu­va vêm os gale­gos que re­gres­sam da Ar­genti­na. Na re­al­idade, chama-​se àqui­lo a classe «em­igrantes». Quan­do a sine­ta fatídi­ca das refeições ressoa pelas en­tran­has féti­das do Ar­lan­za, pre­cipi­tam-​se nu­ma al­gazarra de es­faima­dos para o acan­hado refeitório. Comem no se­gun­do turno, e eu no primeiro: não sei se mel­hor se pi­or, são am­bos pés­si­mos... 

  De vez em quan­do, do abis­mo da es­cotil­ha sobem des­cant­es, muin­heiras e o raspe-​raspe do baile. A cerve­ja es­corre, choca, mor­na e sem es­puma. Du­rante a vi­agem até à Corun­ha, os home­ns gri­tam, dis­cutem com veemên­cia, in­sul­tam-​se e protes­tam. Sur­preen­dem-​me: não são co­mo os gale­gos da min­ha Lis­boa vel­ha, que me habituei a jul­gar dó­ceis, rison­hos e bem-​dis­pos­tos. O No­vo Mun­do aze­dou-​os e en­vel­he­ceu-​os. 

  De re­pente a al­gazarra au­men­ta, e apuro o ou­vi­do: al­gu­ma coisa de sub­ver­si­vo se pas­sa lá em baixo, na fos­sa-​das-​feras. Não tar­da que um de­les, pe­queno, ma­gro e elo­quente, de bar­ba azul no ros­to maci­len­to de tu­ber­cu­loso,