 em quem se adi­vin­ha o lead­er, bote dis­cur­so con­tra a de­scon­sid­er­ação de que es­tão sendo ví­ti­mas: recla­mam, querem mel­hor café, sim­ples­mente café, «que sea café, va­mos!» Dá-​lh­es talvez cor­agem a prox­im­idade da Pá­tria? Se não, porque es­per­aram de­zoito dias para recla­mar? Ou serão hábitos gan­hos na Ar­genti­na, onde ape­sar de tu­do a catarse do Gri­to ain­da é con­sen­ti­da? Protes­tam ago­ra to­dos lá em baixo, ao mes­mo tem­po, em apoio do lead­er. 

  Per­gun­to ao stew­ard in­so­lente, que, de ban­de­ja na mão, mi­ra a ce­na com ar­ianís­si­mo des­dém, por que mo­ti­vo, vin­do este navio dos por­tos do Brasil onde es­tão queiman­do ou dei­tan­do ao mar mon­tan­has de café, so­mos força­dos a in­gerir aque­la mixór­dia sa­lo­bra e gor­durosa, in­fusão de pó-​de-​sap­ato ou fa­va tor­ra­da, a que chamam café? Não sabe re­spon­der, en­col­he os om­bros: 

  -Na primeira ninguém reclam­ou! Talvez o sen­hor pre­fi­ra chá? -inda­ga, sem­pre em atenção à min­ha farpela. 

  -Mas o chá ain­da é pi­or! 

  Quan­to a ele e aos pas­sageiros da primeira, que vêm ol­har o tu­mul­to lá de cima da bal­austra­da co­mo du­ma ga­le­ria so­bre o cir­co das feras, sor­rindo e em­pun­han­do os charu­tos e os co­quetéis -os home­ns de smok­ing ou evening jack­et, elas de­co­tadas, com abafos de pe­les nas del­icadas es­pá­duas sar­den­tas –, para este ga­do moreno e os­su­do, de­for­ma­do pe­lo tra­bal­ho, qual­quer dro­ga serve: for Span­ish and Por­tuguese peo­ple on­ly...

  Co­mo o protesto sobe de tom e as­sume o carác­ter ab­strac­to du­ma in­sub­or­di­nação – nun­ca se sabe até onde pode ir o furor de­stru­ti­vo du­ma mal­ta de mãos vazias! -, o comis­sário foi chamar os ofi­ci­ais, que com­pare­cem, to­dos de bran­co far­da­dos, bor­da­dos a oiro, im­pecáveis, cheiran­do aos ha­vanos e aro­mas da primeira classe, com o riso cíni­co e cheio de maus dentes, co­mo só é pos­sív­el num ros­to de nórdi­co loiro, e pro­ce­dem a um in­quéri­to rápi­do e for­mal. O meneur aze­do e tu­ber­cu­loso é repreen­di­do, e ameaça­do com o cal­abouço. 

  En­tão, in­tim­ida­do pela pre­sença do Im­pério, em­baraça­do com a lín­gua em que lhe falam, aban­don­ado pe­los ca­ma­radas de há pouco, o in­fe­liz perde a elo­quên­cia, em­palidece mais, en­col­he-​se e sor­ri, des­faz-​se em tar­ta­mu­das ex­pli­cações: não es­tá se­guro do que o es­pera na Corun­ha, se de­sem­bar­ca pre­so e o en­tregam à Ben­eméri­ta... Faz-​se o silên­cio mo­men­tâ­neo lá em baixo, e os es­pec­ta­dores re­ti­ram-​se da bal­austra­da a rir, e a tro­car co­men­tários com os galantes ofi­ci­ais. 

  Ah, destes tristes diplo­ma­dos na es­co­la da mis­éria e da hu­mil­dade, que haverá a es­per­ar? a re­vol­ta ce­ga e desvaira­da? a sub­mis­são ab­jec­ta? Co­mo faz­er a Cidade com tal ar­reme­do de Cidadãos? E eles, que voltam mais po­bres do que par­ti­ram -porque, sem na­da terem gan­ho, gas­taram o tesouro in­sub­sti­tuív­el da Ilusão –, ten­tam afog­ar a hu­mil­hação ine­brian­do-​se de má cerve­ja e músi­ca: torno a ou­vir a gai­ta-​de-​foles, os pan­deiros e as flau­tas. É a Gal­iza, que eles levaram con­si­go e tor­nam a traz­er no coração.

  Quan­do o navio lança fer­ro na Corun­ha, sobem to­dos à luz do dia, ex­ibindo os mel­hores tra­pos, os anéis de ouro-​be­souro, os cachenés de cores vi­vas, os xailes de fes­ta; amon­toam-​se no con­vés as cadeiras de vi­agem, os baús de la­ta amol­ga­da, as malas es­bor­doadas, as trouxas, na hu­mi­dade e aflição do de­sem­bar­que. Já es­que­ce­ram o mau café. Ace­nam de longe à ter­ra, que re­sponde. Têm lá­gri­mas nos ol­hos, canti­gas e ris