adas na bo­ca. Em frente a Gal­iza, to­da verde e enevoa­da co­mo um po­ema dos Can­cioneiros, parece triste, recol­hi­da e mis­te­riosa. Chove. Os meni­nos chu­pam os de­dos, agar­ra­dos às sa­ias das mães. E um pe­queno sírio cor de cidra, com os queixos amar­ra­dos da pa­peira, corre ex­ci­ta­do, apa­vo­ra­do, roen­do uma côdea de pão, com gestos de anor­mal. 

  Chega lá de cima, do céu da primeira, uma ra­ja­da de jazz. Os vi­ajantes ol­ham a ce­na da amu­ra­da, e riem-​se. As baga­gens em­pil­ham-​se des­or­de­nada­mente no re­bo­cador, que dança nas on­das. As mul­heres gri­tam de sus­to, as cri­anças choram. Mas vale a pe­na ar­riscar a vi­da para sair do seio deste mon­stro, onde uns vi­ajam, e out­ros são vi­aja­dos. 

  Já no dia em que em­bar­quei a tin­ha en­tre­vis­to pela por­ta da cab­ina, gemen­do e cus­pin­do sem parar no es­car­rador ao la­do do be­liche, per­di­da­mente en­joa­da, a es­pern­ear a es­paços nu­ma fúria histéri­ca, aos gri­tos, com duas ou três mul­heres a ten­tar acalmá-​la. Pe­dia vin­gança em al­tos bra­dos, parece. Diziam-​na perigosa: en­tre o Brasil e a Madeira tin­ha atraí­do aos abis­mos pesti­len­ci­ais da cab­ina dois po­bres ma­chos es­faima­dos -para de­pois se pôr aos gri­tos e mandá-​los pren­der! (Lá es­tão na gaio­la). A bor­do dum pa­que­te in­glês, um ac­to destes é quase tão sub­ver­si­vo co­mo recla­mar café com cafeí­na...

  É uma po­bre tur­ca (ou talvez libane­sa) pe­que­na e es­canze­la­da, com um buço de re­cru­ta, um sor­riso descar­na­do e doente, e uns joel­hos re­pug­nantes que mostra de bom gra­do aos home­ns que cir­cu­lam no deck, ociosos, ago­ra que aliv­iou o mau tem­po e ela veio de no­vo à su­per­fí­cie faz­er tri­cot. A des­graça tem a sua história. Vem de Buenos Aires. O mari­do em­bar­cou com ela, na in­tenção aparente de re­gres­sar ao Lev­ante, trazen­do para bor­do as malas, e to­da a traqui­tana de mer­cador am­bu­lante. Quan­do a apan­hou dis­traí­da a cor­rer o navio, na ale­gria da vi­agem e dos tra­pos novos, no úl­ti­mo mo­men­to es­gueirou-​se para ter­ra. E ela, em gri­tos de de­ses­pero que ninguém po­dia en­ten­der (não havia out­ros tur­cos a bor­do, e os sírios só em­bar­caram no Brasil), viu-​se aban­don­ada, feia e ma­gra, no bo­jo do mon­stro acel­er­ado. Ninguém se im­por­tou com o seu dra­ma. O Ar­lan­za não fez mar­cha à ré, nem parou. En­tão, num im­pul­so de lou­cu­ra, a in­fe­liz de­satou a ati­rar pela bor­da fo­ra, para o rio da Pra­ta, vesti­dos, camisas, sa­ias, recor­dações, o pecúlio de lon­gos anos de es­cravidão, e to­do o luxo de vi­ajante de vol­ta à ter­ra. Para que lhe servia ago­ra aqui­lo, se não tin­ha o seu homem? Lá deixou quase to­da a bagagem, mas não a car­caça, ou porque lhe fal­tou a cor­agem, ou porque a quis con­ser­var para se vin­gar dos home­ns. Mas, de­pois da triste ex­per­iên­cia dos dois primeiros, to­dos fo­gem dela, dos seus ol­hos de cabra, ne­gros e mis­te­riosos, onde se enx­er­ga a im­agem da cadeia nu­ma luz sin­is­tra de vin­gança muçul­mana. Ninguém a quer aju­dar a vin­gar-​se. Cruzes! 

  Quem me con­tou is­to foi o pescador por­tuguês que vol­ta pela quar­ta vez à Améri­ca, para pescar, co­mo um mare­ante do tem­po dos Corte-​Reais. Já lá viveu muitos anos segui­dos, mas ago­ra vi­aja para cá e para lá, con­forme lhe dá na vene­ta. É moreno, seco de carnes e mo­dos, filosó­fi­co. Lê livros, an­da sem­pre de ócu­los grossos, pal­ito de os­so nos dentes, de boina bas­ca e bo­tas de pescador. É fil­ho da Figueira, se­gun­do me diz. Vê-​se que é homem vivi­do, sen­hor de si, sem fron­teiras nem coure­las na cabeça. O mun­do e o mar são dele, ten­do por úni­cos lim­ites os di­re­itos do próx­imo. Ex