­prime-​se bem, com pre­cisão. Parece mais um caçador que um pescador, talvez porque a sua es­pe­cial­idade foi em tem­pos ar­poar baleias. De vez em quan­do de­sa­parece para se ir bar­bear -duas vezes por dia –, de­pois vol­ta ao deck, de pal­ito na bo­ca, para es­tu­dar o mar e sope­sar a po­la­ca: 

  -Aqui­lo é que ela é boa! Oh sen­hor, uma las­ca as­sim, e ele um trin­ca-​es­pin­has! Lá na Améri­ca, as po­la­cas... 

  A pre­sença dela, na ociosi­dade, dá-​lhe pen­sa­men­tos pouco orto­dox­os. Quan­do ela se some, acom­pan­ha­da do saguim aos pulin­hos, ele de­sa­parece tam­bém, ir­ri­ta­do. Vai talvez ron­dar-​lhe a por­ta do ca­marote. E o chu­lo, um fra­cal­hote, an­da in­qui­eto e páli­do, fare­ja o peri­go, o ri­val... A bor­do é pre­ciso man­ter a lin­ha, acabou-​se o negó­cio, são gente re­speitáv­el. 

  É o mais in­teligente, se não o úni­co, deste nos­so ban­do triste. Ol­ha os com­pa­tri­otas, os hu­mildes das il­has ou os per­por­rentes das ser­ras, com um mis­to de iro­nia e es­tran­heza. Gente da ter­ra, do cam­panário, de jeiras e tor­nas e par­til­has, não é com ele. Não tem raízes na ter­ra, é livre, as dolas e pru­pi­adades não lhe in­ter­es­sam. Quan­do não lhe agra­da a con­ver­sa dos cam­pónios, franze a tes­ta, dá-​lh­es costas e vai-​se pôr a ol­har o mar tem­pos in­fin­dos, mas sem nos­tal­gia nem con­tem­plação: com o ar es­tu­dioso e críti­co dum con­hece­dor. No mar não há con­ser­vatórias nem re­quer­imen­tos. Com­preende coisas que es­capam aos out­ros, tem o es­píri­to aber­to e lib­er­al. Faz con­tas prodi­giosas de cabeça, con­ver­sões de moedas in­gle­sas, por­tugue­sas e amer­icanas. Não é, pois, que o din­heiro não lhe in­ter­esse: até me deixa en­ten­der que tam­bém an­dou no con­tra­ban­do da cachaça, ao lon­go da cos­ta do Leste... 

  E no en­tan­to, este homem cal­mo e forte, solitário e per­feita­mente sen­hor de si, tem, ou teve, o seu dra­ma... Foi casa­do, em ra­paz, com uma por­tugue­sa de Glouces­ter, mul­her de al­guns haveres, que lhe deu um fil­ho. Por al­gum mo­ti­vo que ele não diz, tem­pos de­pois es­tavam sep­ara­dos: mor­reu há bas­tantes anos. Ele criou o fil­ho co­mo uma mãe: noites em claro a em­balá-​lo, a dar-​lhe a chucha, a mu­dar-​lhe os cueiros e fral­das, as roupas do berço. Fazia-​lhe a co­mi­da, lev­ava-​o a pas­seio. Quan­do saía para o mar, deix­ava-​o aos cuida­dos du­ma viz­in­ha, mul­her de idade. Cus­ta-​me vi­sion­ar este ar­poador de cachalotes, queima­do e seco, de ócu­los grossos, en­tregue aos desve­los ma­ter­nais dum be­bé…O ra­paz cresceu, foi à es­co­la, in­stru­iu-​se, e o pai orgul­hoso man­dou-​o ao col­lege, à Har­vard, fez dele en­gen­heiro... Lá in­teligente era o gajo. Bem-​com­por­ta­do, obe­di­ente, ami­go de agradar. Nun­ca lhe to­cou com um de­do, ao con­trário de tan­tos com­pa­tri­otas. 

  -Mas aque­le ladrão iludiu-​me, saía à mãe! Quan­do se apan­hou for­ma­do, an­da­va lá meti­do com gente da al­ta, em Boston e Cam­bridge, e ca­sou-​se com uma ra­pari­ga amer­icana, com bago. Até me ad­mi­ra, que elas pou­ca im­portân­cia nos lig­am, e para mais fil­ho de pescador... Ela de­via es­tar pe­lo beiço, boni­to ra­paz! Era o meu tipo, mas bran­co, a cara da mãe... Pois nun­ca mais me procurou! Nem um postal no dia dos anos, ou pelas Crismas. Já tem chega­do a pas­sar por mim na rua, com ela de braço da­do, e atrav­es­sa pró out­ro pas­seio só pra não falar a quem o fez e o criou. Vá lá quer­er bem a um fil­ho, matar-​se por ele...! Ven­di a casa, ven­di tu­do, e voltei prà Figueira a es­paire­cer uma tem­po­ra­da. Ago­ra só vou à Améri­ca quan­do me dão saudades do mar, ou da pesca...

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