e por engano; do medíocre que as­pi­ra a man­dar. Deve ser pres­idente ou se­cretário de al­gum clube ou so­ciedade colo­nial, onde os tram­po­lineiros en­car­ta­dos ar­reban­ham os pat­egos para mel­hor lh­es falarem de Camões, que nun­ca ler­am, e lh­es chu­parem os dólares. Cam­pónio ganan­cioso, furti­vo e chi­caneiro, é o opos­to do ru­ral bucóli­co da len­da: os seus ol­hos de lou­va­do pe­sam a na­tureza in­teira em ter­mos de in­ven­tário e par­til­has, a sua al­ma é fei­ta de re­tal­hos de bens, de coure­las. É des­ta mas­sa que se fazem há sécu­los os doutores de leis, cu­ja cul­tura coim­brã tem per­me­ado, através do Poder, da in­fluên­cia, da sub­mis­são e da lou­vam­in­ha, e a com­pas­so do Fa­do gar­gare­ja­do, a vi­da e a cul­tura por­tugue­sa, re­duzin­do-​a ao es­ta­do em que ho­je a ve­mos em to­dos os sec­tores. Es­tá sem­pre com quem man­da, Deus guarde a V. Ex.ª, com a Or­dem e a Con­ser­vação, e o seu ol­hin­ho man­hoso e trocista re­luz ao fun­do du­ma lo­can­da ob­scu­ra, co­mo o de um tex­ugo que espre­ita a pre­sa: a amon­toar níqueis na es­per­ança-​de! 

  Há out­ro do mes­mo género, mas em gor­do, baixo e pas­toso: en­ver­ga um so­bre­tu­do imen­so, de lã de came­lo, que parece her­da­do de al­gum nababo. Das man­gas saem-​lhe ape­nas as cabeças dos de­dos, grossas co­mo ba­que­tas de tam­bor, e luzidias. O cachecol de se­da cor de sangue-​de-​boi dá-​lhe um rele­vo vi­olen­to à cara cheia, more­na e bar­bu­da, onde o nar­iz mal avul­ta, co­mi­do pela adi­posi­dade in­va­so­ra. Trom­bas de caceteiro ou quadrilheiro dos bons tem­pos. É amar­icano, e não deixa de o repe­tir com ên­fase. Tam­bém veio à Pá­tria com­prar ter­ras, e é amante do Pu­gres­so. Para ele al­guns quilómet­ros de estradas valem por to­dos os ideais. Quan­do fala de dolas e pru­pi­adades parece um cabo de or­dens em go­zo de li­cença, e re­mexe as cabeças dos de­dos, que espre­itam das man­gas co­mo fan­toches. Foi tra­bal­hador de pá-​e-​pi­co, um «bur­ro de tra­bal­ho», diz orgul­hosa­mente, mas ho­je é bossa, é pa­trão e con­tra­ta (con­trac­tor, em­pre­it­eiro). Bem suce­di­do, man­hoso e boçal, é a cor­ruptela do cam­ponês em ku­lak, e só re­spei­ta os poderes da força e do din­heiro. Se tivesse ido para o Brasil no tem­po das va­cas gor­das tin­ha volta­do barão, ou pe­lo menos comen­dador. Re­toma teimosa­mente o fio de uma história que ninguém en­tende nem es­cu­ta: «Pois co­mo l'eu ia dizen­do, tá lá ago­ra uma jun­ta de par­róquia…» 

  Quan­do lhe falam dos tem­pos da crise: «Quais crise, nem quais de­sem­prego! Eu maila pa­troa chegá­mos a faz­er às se­ten­ta e oiten­ta dolas por se­mana!» Havia mil­hões de de­sem­pre­ga­dos, mas: «Nun­ca fal­ta tra­bal­ho a quem quer tra­bal­har!» -um pon­to de vista per­feita­mente dig­no de um pres­idente da Gen­er­al Mo­tors. Grande nação, a Améri­ca. Nem quer que lhe falem nas Uniões op­erárias: cor­ja de raca­tias! Muitos már­tires têm sofri­do e mor­ri­do para que este «op­erário», que odeia a sua classe, se aproveite de to­das as con­quis­tas e priv­ilé­gios do Tra­bal­ho or­ga­ni­za­do: o se­guro con­tra o de­sem­prego, as pen­sões na doença e na vel­hice, o di­re­ito de or­ga­ni­za­ção e os con­tratos colec­tivos... A Liber­dade é o seu po­mar, mas out­ros o plan­taram. As­pi­ra a ser gente, fala de pa­po a re­speito de quan­to al­cança o seu ol­hin­ho suíno e in­ex­pres­si­vo, de­tes­ta o pres­idente Roo­sevelt, vai às pro­cis­sões do Bate­fete co­mo na sua aldeia ser­rana, e é «ir­mão» do San­tís­si­mo. (Saberá o San­tís­si­mo da ex­istên­cia deste ir­mão es­púrio?) E no en­tan­to, ri-​se com as histórias de padres do seu par­ceiro, e tam­bém