Title: Ilha dos Amores “Os Lusíadas” 
Author: Luís de Camões
CreationDate: Thu Jul 09 16:24:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 11 11:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Il­ha dos Amores “Os Lusíadas” 

  – Da Es­tân­cia 18 do Can­to IX à Es­tân­cia 143 do Can­to X

  Luís de Camões

  As Es­tân­cias 10 a 95 do Can­to IX e as Es­tân­cias 1 a 143 do Can­to X, aqui pub­li­cadas, foram ex­traí­das da edição de Os Lusíadas do In­sti­tuo Camões, que gen­til­mente au­tor­izou a sua pub­li­cação.

  © 1996, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-35-9

  Lis­boa, Jul­ho de 1996

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  IL­HA DOS AMORES

  IX

  18 

  Porém a Deusa Cípria, que or­de­na­da 

  Era, pera fa­vor dos Lusi­tanos, 

  Do Padre Eter­no, e por bom génio da­da, 

  Que sem­pre os guia já de lon­gos anos, 

  A glória por tra­bal­hos al­cança­da, 

  Sat­is­fação de bem sofri­dos danos, 

  Lhe an­da­va já or­de­nan­do, e pre­tendia 

  Dar-​lhe nos mares tristes, ale­gria. 

  19 

  De­spois de ter um pouco re­volvi­do 

  Na mente o largo mar que nave­garam, 

  Os tra­bal­hos que pe­lo Deus nasci­do 

  Nas An­fió­nias Tebas se causaram, 

  Já trazia de longe no sen­ti­do, 

  Pera prémio de quan­to mal pas­saram, 

  Bus­car-​lhe al­gum deleite, al­gum des­can­so, 

  No Reino de cristal, líqui­do e man­so; 

  20 

  Al­gum re­pouso, en­fim, com que pudesse 

  Re­focilar a las­sa hu­manidade 

  Dos nave­gantes seus, co­mo in­ter­esse 

  Do tra­bal­ho que en­cur­ta a breve idade. 

  Parece-​lhe razão que con­ta desse 

  A seu fil­ho, por cu­ja potes­tade 

  Os Deuses faz de­cer ao vil ter­reno 

  E os hu­manos subir ao Céu sereno.

  21 

  Is­to bem re­volvi­do, de­ter­mi­na 

  De ter-​lhe apar­el­ha­da, lá no meio 

  Das águas, al­güa ín­su­la div­ina, 

  Or­na­da d' es­mal­ta­do e verde ar­reio; 

  Que muitas tem no reino que con­fi­na 

  Da primeira co ter­reno seio, 

  Afo­ra as que pos­sui sober­anas 

  Pera den­tro das por­tas Her­cu­lanas. 

  22 

  Ali quer que as aquáti­cas donze­las 

  Es­perem os fortís­si­mos barões 

  (To­das as que têm tí­tu­lo de be­las, 

  Glória dos ol­hos, dor dos corações) 

  Com danças e cor­eias, porque nelas 

  In­fluïrá sec­re­tas afeições, 

  Pera com mais von­tade tra­bal­harem 

  De con­tentar a quem se afeiçoarem. 

  23 

  Tal man­ha bus­cou já pera que aque­le 

  Que de An­quis­es par­iu, bem re­ce­bido 

  Fos­se no cam­po que a bov­ina pele 

  To­mou de es­paço, por su­til par­tido. 

  Seu fil­ho vai bus­car, porque só nele 

  Tem to­do seu poder, fero Cu­pi­do, 

  Que, as­si co­mo naque­la em­pre­sa anti­ga 

  A aju­dou já, nestoutra a ajude e siga. 

  24 

  No car­ro ajun­ta as aves que na vi­da 

  Vão da morte as exéquias cel­ebran­do, 

  E aque­las em que já foi con­ver­ti­da 

  Perístera, as bon­inas apan­han­do;

  Em derre­dor da Deusa, já par­ti­da, 

  No ar las­civos bei­jos se vão dan­do; 

  Ela, por onde pas­sa, o ar e o ven­to 

  Sereno faz, com bran­do movi­men­to. 

  25 

  Já so­bre os Idálios montes pende, 

  Onde o fil­ho frecheiro es­ta­va en­tão,

  Ajun­tan­do out­ros muitos, que pre­tende 

  Faz­er ua famosa ex­pe­dição 

  Con­tra o mun­do rev­elde, por que emende 

  Er­ros grandes que há dias nele es­tão, 

  Aman­do cousas que nos foram dadas, 

  Não pera ser amadas, mas us­adas. 

  26

  Via Ac­téon na caça tão aus­tero, 

  De cego na ale­gria bru­ta, in­sana, 

  Que, por seguir um feio an­imal fero, 

  Foge da gente e bela for­ma hu­mana; 

  E por cas­