ti­go quer, doce e severo, 

  Mostrar-​lhe a fer­mo­sura de Di­ana. 

  (E guarde-​se não se­ja in­da co­mi­do 

  Dess­es cães que ago­ra ama, e con­sum­ido). 

  27

  E vê do mun­do to­do os prin­ci­pais 

  Que nen­hum no bem púbri­co imag­ina; 

  Vê ne­les que não têm amor a mais 

  Que a si so­mente, e a quem Filáu­cia en­si­na; 

  Vê que ess­es que fre­quen­tam os reais 

  Paços, por ver­dadeira e sã dout­ri­na 

  Ven­dem adu­lação, que mal con­sente 

  Mon­dar-​se o no­vo tri­go flo­re­cente. 

  28

  Vê que aque­les que de­vem à po­breza 

  Amor di­vi­no, e ao po­vo cari­dade, 

  Amam so­mente man­dos e riqueza, 

  Sim­ulan­do justiça e in­te­gri­dade; 

  Da feia tira­nia e de as­pereza 

  Fazem di­re­ito e vã sev­eri­dade; 

  Leis em fa­vor do Rei se es­ta­bele­cem, 

  As em fa­vor do po­vo só pere­cem. 

  29 

  Vê, en­fim, que ninguém ama o que deve, 

  Senão o que so­mente mal de­se­ja. 

  Não quer que tan­to tem­po se releve 

  O cas­ti­go que duro e jus­to se­ja. 

  Seus min­istros ajun­ta, por que leve 

  Exérci­tos con­formes à pele­ja 

  Que es­pera ter co a mal regi­da gente 

  Que lhe não for ago­ra obe­di­ente. 

  30

  Muitos destes mini­nos voadores 

  Es­tão em várias obras tra­bal­han­do: 

  Uns amolan­do fer­ros pas­sadores, 

  Out­ros hásteas de se­tas del­gaçan­do. 

  Tra­bal­han­do, can­tan­do es­tão de amores, 

  Vários ca­sos em ver­so mod­ulan­do; 

  Melo­dia sono­ra e con­cer­ta­da, 

  Suave a le­tra, angéli­ca a soa­da. 

  31

  Nas fráguas imor­tais onde for­javam 

  Pera as se­tas as pon­tas pen­etrantes, 

  Por lenha corações ar­den­do es­tavam, 

  Vi­vas en­tran­has in­da pal­pi­tantes; 

  As águas onde os fer­ros tem­per­avam, 

  Lá­gri­mas são de míseros amantes; 

  A vi­va fla­ma, o nun­ca mor­to lume, 

  De­se­jo é só que queima e não con­sume. 

  32

  Al­guns ex­erci­tan­do a mão an­davam 

  Nos duros corações da plebe ru­da; 

  Cre­bros sus­piros pe­lo ar soavam 

  Dos que feri­dos vão da se­ta agu­da. 

  Fer­mosas Nin­fas são as que cu­ravam 

  As cha­gas re­ce­bidas, cu­ja aju­da 

  Não so­mente dá vi­da aos mal feri­dos, 

  Mas põe em vi­da os in­da não nasci­dos. 

  33

  Fer­mosas são al­guas e out­ras feias, 

  Se­gun­do a qual­idade for das cha­gas, 

  Que o ve­neno es­pal­ha­do pelas veias 

  Cu­ram-​no às vezes ásperas tria­gas. 

  Al­guns fi­cam lig­adas em cadeias 

  Por palavras sutis de sábias ma­gas; 

  Is­to acon­tece às vezes, quan­do as se­tas 

  Ac­er­tam de levar er­vas sec­re­tas. 

  34

  Destes tiros as­si des­or­de­na­dos, 

  Que estes moços mal de­stros vão tiran­do, 

  Nascem amores mil de­scon­cer­ta­dos 

  En­tre o po­vo feri­do miseran­do; 

  E tam­bém nos heróis de al­tos es­ta­dos 

  Ex­em­plos mil se vêm de amor ne­fan­do, 

  Qual o das moças Bíbli e Cinireia, 

  Um mance­bo de As­síria, um de Judeia. 

  35 

  E vós, ó poderosos, por pas­toras 

  Muitas vezes feri­do o peito vedes; 

  E por baixos e rudos, vós, sen­ho­ras, 

  Tam­bém vos tomam nas Vul­câneas re­des. 

  Uns es­peran­do andais noc­tur­nas ho­ras, 

  Out­ros subis tel­ha­dos e pare­des; 

  Mas eu creio que deste amor in­di­no 

  É mais cul­pa a da mãe que a do mini­no. 

  36

  Mas já no verde pra­do o car­ro leve 

  Pun­ham os bran­cos cisnes mansa­mente; 

  E Dione, que as rosas en­tre a neve 

  No ros­to traz, de­cia dili­gente. 

  O frecheiro que con­tra o Céu se atreve 

  A re­ce­bê-​la vem, lendo e con­tente; 

  Vêm to­dos os Cu­pi­dos servi­dores 

  Bei­jar a mão à Deusa dos amo