­da ou­sa­dia. 

  35 

  «E lo­go, en­tran­do fero na en­sea­da 

  De Dio, ilus­tre em cer­cos e batal­has, 

  Fará es­pal­har a fra­ca e grande ar­ma­da 

  De Cale­cu, que re­mos tem por mal­has. 

  A de Melique laz, acaute­la­da, 

  Cos pelouros que tu, Vul­cano, es­pal­has, 

  Fará ir ver o frio e fun­do as­sen­to, 

  Se­cre­to leito do húmi­do el­emen­to. 

  36 

  «Mas a de Mir Hocém, que, abal­roan­do, 

  A fúria es­per­ará dos vin­gadores, 

  Verá braços e per­nas ir nadan­do 

  Sem cor­pos, pe­lo mar, de seus sen­hores. 

  Raios de fo­go irão rep­re­sen­tan­do, 

  No cego ar­dor, os bravos do­madores. 

  Quan­to ali sen­tirão ol­hos e ou­vi­dos 

  É fu­mo, fer­ro, fla­mas e alar­idos.

  37 

  «Mas ah, que des­ta próspera vitória, 

  Com que de­pois virá ao pátrio Tejo, 

  Quási lhe roubará a famosa glória 

  Um suces­so, que triste e ne­gro ve­jo! 

  O Cabo Tor­men­tório, que a memória 

  Cos os­sos guardará, não terá pe­jo 

  De tirar deste mun­do aque­le es­pri­to, 

  Que não tiraram to­da a Ín­dia e Egip­to. 

  38 

  «Ali, Cafres sel­vagens poderão 

  O que de­stros imi­gos não pud­er­am; 

  E rudos paus tosta­dos sós farão 

  O que ar­cos e pelouros não fiz­er­am. 

  Ocul­tos os juí­zos de Deus são; 

  As gentes vãs, que não nos en­ten­der­am, 

  Chamam-​lhe fa­do mau, for­tu­na es­cu­ra, 

  Sendo só providên­cia de Deus pu­ra. 

  39 

  «Mas oh, que luz taman­ha que abrir sin­to 

  (Dizia a Nin­fa, e a voz al­evan­ta­va)

  Lá no mar de Melinde, em sangue tin­to 

  Das cidades de Lamo, de Oja e Bra­va, 

  Pe­lo Cun­ha tam­bém, que nun­ca ex­tin­to 

  Será seu nome em to­do o mar que la­va 

  As il­has do Aus­tro, e pra­ias que se chamam 

  De São Lourenço, e em to­do o Sul se afamam! 

  40 

  «Es­ta luz é do fo­go e das luzentes 

  Ar­mas com que Al­bu­querque irá amansan­do 

  De Or­muz os Párseos, por seu mal va­lentes, 

  Que re­fusam o ju­go hon­roso e bran­do. 

  Ali verão as se­tas estri­dentes 

  Re­cip­ro­car-​se, a pon­ta no ar vi­ran­do 

  Con­tra quem as tirou; que Deus pele­ja 

  Por quem es­tende a fé da Madre Igre­ja. 

  41 

  «Ali do sal os montes não de­fen­dem 

  De cor­rupção os cor­pos no com­bate, 

  Que mor­tos pela pra­ia e mar se es­ten­dem 

  De Gerum, de Maz­cate e Cala­iate; 

  Até que à força só de braço apren­dem 

  A abaxar a cerviz, onde se lhe ate 

  Obri­gação de dar o reino in­ico 

  Das per­las de Barém trib­uto ri­co. 

  42 

  «Que glo­riosas pal­mas tecer ve­jo 

  Com que Vitória a fronte lhe coroa, 

  Quan­do, sem som­bra vã de me­do ou pe­jo, 

  Toma a il­ha ilus­trís­si­ma de Goa! 

  De­spois, obe­de­cen­do ao duro en­se­jo, 

  A deixa, e ocasião es­pera boa 

  Com que a torne a tomar, que es­forço e arte 

  Vencerão a For­tu­na e o próprio Marte. 

  43 

  «Eis já so­br' ela tor­na e vai rompen­do 

  Por muros, fo­go, lanças e pelouros, 

  Abrindo com a es­pa­da o es­pes­so e hor­ren­do 

  Es­quadrão de Gen­tios e de Mouros, 

  Irão sol­da­dos ín­cli­tos fazen­do 

  Mais que liões faméli­cos e touros, 

  Na luz que sem­pre cel­ebra­da e di­na 

  Será da Egíp­cia San­ta Cate­ri­na.

  44 

  «Nem tu menos fu­gir poderás deste, 

  Pos­to que ri­ca e pos­to que as­sen­ta­da 

  Lá no grémio da Au­ro­ra, onde naces­te, 

  Op­ulen­ta Mala­ca nomea­da. 

  As se­tas ve­nenosas que fizeste, 

  Os crises com que já te ve­jo ar­ma­da, 

  Malaios namora­dos, Jaus va­lentes, 

  To­dos farás ao Lu­so obe­di­entes.» 

  45 

  Mais es­tanças can­tara es­ta Sire­na 

  Em lou­vor do ilus­trís­si­