mo Al­bu­querque, 

  Mas alem­brou-​lhe ua ira que o con­de­na, 

  Pos­to que a fama sua o mun­do cerque. 

  O grande Capitão, que o fa­do or­de­na 

  Que com tra­bal­hos glória eter­na merque, 

  Mais há-​de ser um bran­do com­pan­heiro 

  Pera os seus, que juiz cru­el e in­teiro.

  46 

  Mas em tem­po que fomes e as­perezas, 

  Doenças, frechas e tro­vões ar­dentes, 

  A sazão e o lu­gar, fazem cruezas 

  Nos sol­da­dos a tu­do obe­di­entes, 

  Parece de selváti­cas brutezas, 

  De peitos inu­manos e in­so­lentes, 

  Dar ex­tremo su­plí­cio pela cul­pa 

  Que a fra­ca hu­manidade e Amor de­scul­pa. 

  47 

  Não será a cul­pa abomi­noso in­ces­to 

  Nem vi­olen­to es­tupro em virgem pu­ra, 

  Nem menos adultério des­on­esto, 

  Mas cua es­cra­va vil, las­ci­va e es­cu­ra. 

  Se o peito, ou de cioso, ou de modesto, 

  Ou de us­ado a crueza fera e du­ra, 

  Cos seus ua ira in­sana não re­freia, 

  Põe, na fama al­va, no­da ne­gra e feia. 

  48 

  Viu Alexan­dre Ape­les namora­do 

  Da sua Cam­paspe, e deu-​lha ale­gre­mente, 

  Não sendo seu sol­da­do ex­pri­men­ta­do, 

  Nem ven­do-​se num cer­co duro e ur­gente. 

  Sen­tiu Ciro que an­da­va já abrasa­do 

  Aras­pas, de Pan­teia, em fo­go ar­dente, 

  Que ele tomara em guar­da, e prome­tia 

  Que nen­hum mau de­se­jo o vence­ria; 

  49 

  Mas, ven­do o ilus­tre Per­sa que ven­ci­do 

  Fo­ra de Amor, que, en­fim, não tem de­fen­sa, 

  Lev­emente o per­doa, e foi servi­do 

  Dele num ca­so grande, em rec­om­pen­sa. 

  Per força, de Ju­di­ta foi mari­do 

  O férreo Bal­duíno; mas dis­pen­sa 

  Car­los, pai dela, pos­to em cousas grandes, 

  Que vi­va e povoador se­ja de Fran­des. 

  50 

  Mas, prosseguin­do a Nin­fa o lon­go can­to, 

  De Soares can­ta­va, que as ban­deiras 

  Faria trem­ular e pôr es­pan­to 

  Pelas rox­as Arábi­cas ribeiras: 

  - «Med­ina abom­iná­bil teme tan­to, 

  Quan­to Meca e Gidá co as der­radeiras 

  Pra­ias de Abás­sia; Bar­borá se teme 

  Do mal de que o em­pório Zeila geme. 

  51 

  «A no­bre il­ha tam­bém de Taprobana, 

  Já pe­lo nome anti­go tão famosa 

  Quan­to ago­ra sober­ba e sober­ana 

  Pela cor­tiça cál­ida, cheirosa, 

  Dela dará trib­uto à Lusi­tana 

  Ban­deira, quan­do, ex­cel­sa e glo­riosa, 

  Ven­cen­do se er­guerá na torre er­gui­da, 

  Em Colum­bo, dos próprios tão temi­da. 

  52 

  «Tam­bém Se­queira, as on­das Er­itreias 

  Di­vidin­do, abrirá no­vo cam­in­ho 

  Pera ti, grande Im­pério, que te ar­reias 

  De seres de Can­dace e Sabá nin­ho. 

  Maçuá, com cis­ter­nas de água cheias 

  Verá, e o por­to Ar­quico, ali viz­in­ho; 

  E fará de­sco­brir re­mo­tas Il­has, 

  Que dão ao mun­do no­vas mar­avil­has. 

  53 

  «Virá de­spois Mene­ses, cu­jo fer­ro 

  Mais na África, que cá, terá prova­do; 

  Cas­ti­gará de Or­muz sober­ba o er­ro, 

  Com lhe faz­er trib­uto dar do­bra­do. 

  Tam­bém tu, Gama, em pa­go do dester­ro 

  Em que es­tás e serás in­da tor­na­do, 

  Cos tí­tu­los de Conde e d' hon­ras no­bres 

  Virás man­dar a ter­ra que de­sco­bres. 

  54 

  «Mas aque­la fa­tal ne­ces­si­dade 

  De quem ninguém se exime dos hu­manos, 

  Ilustra­do co a Ré­gia dig­nidade, 

  Te tirará do mun­do e seus enganos. 

  Out­ro Mene­ses lo­go, cu­ja idade 

  É maior na prudên­cia que nos anos, 

  Gov­ernará; e fará o di­toso Hen­rique 

  Que per­pé­tua memória dele fique. 

  55

  «Não vencerá so­mente os Mal­abares, 

  De­stru­in­do Panane com Coulete, 

  Come­tendo as bom­bar­das, que, nos ares, 

  Se vingam só do peito que as comete;