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  - «Faz-​te mer­cê, barão, a Sapiên­cia 

  Supre­ma de, cos ol­hos cor­po­rais, 

  Veres o que não pode a vã ciên­cia 

  Dos er­ra­dos e míseros mor­tais. 

  Sigue-​me firme e forte, com prudên­cia, 

  Por este monte es­pes­so, tu cos mais.» 

  As­si lhe diz e o guia por um ma­to 

  Ár­duo, difí­cil, duro a hu­mano tra­to. 

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  Não an­dam muito que no er­gui­do cume 

  Se acharam, onde um cam­po se es­mal­ta­va 

  De es­mer­al­das, ru­bis, tais que pre­sume 

  A vista que di­vi­no chão pisa­va. 

  Aqui um globo vêm no ar, que o lume 

  Clarís­si­mo por ele pen­etra­va, 

  De mo­do que o seu cen­tro es­tá ev­idente, 

  Co­mo a sua su­per­fí­cia, clara­mente. 

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  Qual a matéria se­ja não se enx­er­ga, 

  Mas enx­er­ga-​se bem que es­tá com­pos­to 

  De vários orbes, que a Div­ina ver­ga 

  Com­pôs, e um cen­tro a to­dos só tem pos­to. 

  Vol­ven­do, ora se abaxe, ago­ra se er­ga, 

  Nun­ca s' er­gue ou se abaxa, e um mes­mo ros­to

  Por to­da a parte tem; e em to­da a parte

  Começa e aca­ba, en­fim, por div­ina arte, 

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  Uni­forme, per­feito, em si susti­do, 

  Qual, en­fim, o Ar­quetipo que o criou. 

  Ven­do o Gama este globo, co­movi­do 

  De es­pan­to e de de­se­jo ali fi­cou. 

  Diz-​lhe a Deusa: -"O tran­sun­to, re­duzi­do 

  Em pe­queno vol­ume, aqui te dou 

  Do Mun­do aos ol­hos teus, pera que ve­jas 

  Por onde vás e irás e o que de­se­jas. 

  80

  «Vês aqui a grande máquina do Mun­do, 

  Etérea e el­emen­tal, que fab­ri­ca­da 

  As­si foi do Saber, al­to e pro­fun­do, 

  Que é sem princí­pio e meta lim­ita­da. 

  Quem cer­ca em derre­dor este ro­tun­do 

  Globo e sua su­per­fí­cia tão li­ma­da, 

  É Deus: mas o que é Deus, ninguém o en­tende, 

  Que a tan­to o en­gen­ho hu­mano não se es­tende. 

  81 

  «Este orbe que, primeiro, vai cer­can­do 

  Os out­ros mais pe­quenos que em si tem, 

  Que es­tá com luz tão clara ra­dian­do 

  Que a vista ce­ga e a mente vil tam­bém, 

  Em­píreo se nomeia, onde lo­gran­do 

  Puras al­mas es­tão daque­le Bem 

  Taman­ho, que ele só se en­tende e al­cança, 

  De quem não há no mun­do semel­hança. 

  82

   «Aqui, só ver­dadeiros, glo­riosos 

  Di­vos es­tão, porque eu, Sat­urno e Jano, 

  Júpiter, Juno, fo­mos fab­ulosos, 

  Fin­gi­dos de mor­tal e cego engano. 

  Só pera faz­er ver­sos deleitosos 

  Servi­mos; e, se mais o tra­to hu­mano 

  Nos pode dar, é só que o nome nos­so 

  Nes­tas es­tre­las pôs o en­gen­ho vos­so. 

  83 

  «E tam­bém, porque a san­ta Providên­cia, 

  Que em Júpiter aqui se rep­re­sen­ta, 

  Por es­píri­tos mil que têm prudên­cia 

  Gov­er­na o Mun­do to­do que sus­ten­ta 

  (En­si­na-​lo a proféti­ca ciên­cia, 

  Em muitos dos ex­em­plos que ap­re­sen­ta); 

  Os que são bons, guian­do, fa­vore­cem, 

  Os maus, em quan­to po­dem, nos em­pecem; 

  84 

  «Quer lo­go aqui a pin­tu­ra que varia 

  Ago­ra delei­tan­do, ora en­si­nan­do, 

  Dar-​lhe nomes que a anti­ga Poe­sia 

  A seus Deuses já de­ra, fab­ulan­do; 

  Que os An­jos de ce­leste com­pan­hia 

  Deuses o sacro ver­so es­tá chaman­do, 

  Nem ne­ga que esse nome pre­mi­nente 

  Tam­bém aos maus se dá, mas fal­sa­mente. 

  85

  «En­fim que o Sumo Deus, que por se­gun­das 

  Causas obra no mun­do, tu­do man­da. 

  E tor­nan­do a con­tar-​te das pro­fun­das 

  Obras da Mão Div­ina veneran­da, 

  De­baxo deste cír­cu­lo onde as mundas 

  Al­mas div­inas gozam, que não an­da, 

  Out­ro corre, tão leve e tão ligeiro 

  Que não se enx­er­ga: é o Mó­bile primeiro. 

  86 

  «Co