m este rap­to e grande movi­men­to 

  Vão to­dos os que den­tro tem no seio; 

  Por obra deste, o Sol, an­dan­do a ten­to, 

  O dia e noite faz, com cur­so al­heio. 

  De­baxo deste leve, an­da out­ro lento, 

  Tão lento e so­ju­ga­do a duro freio, 

  Que en­quan­to Febo, de luz nun­ca es­cas­so, 

  Duzen­tos cur­sos faz, dá ele um pas­so. 

  87 

  «Ol­ha estoutro de­baxo, que es­mal­ta­do 

  De cor­pos lisos an­da e ra­di­antes, 

  Que tam­bém nele tem cur­so or­de­na­do 

  E nos seus ax­es cor­rem cin­ti­lantes. 

  Bem vês co­mo se veste e faz or­na­do 

  Co largo Cin­to d' ouro, que es­te­lantes 

  An­imais doze traz afig­ura­dos, 

  Apousen­tos de Febo lim­ita­dos. 

  88 

  «Ol­ha por out­ras partes a pin­tu­ra 

  Que as Es­tre­las ful­gentes vão fazen­do: 

  Ol­ha a Car­reta, aten­ta a Cinosura, 

  An­dróme­da e seu pai, e o Dra­go hor­ren­do; 

  Vê de Cas­siopeia e fer­mo­sura 

  E do Ori­ente o gesto tur­bu­len­to; 

  Ol­ha o Cisne mor­ren­do que sus­pi­ra, 

  A Le­bre e os Cães, a Nau e a doce Li­ra. 

  89 

  «De­baxo deste grande Fir­ma­men­to, 

  Vês o céu de Sat­urno, Deus anti­go; 

  Júpiter lo­go faz o movi­men­to, 

  E Marte abaxo, béli­co in­imi­go; 

  O claro Ol­ho do céu, no quar­to as­sen­to, 

  E Vénus, que os amores traz con­si­go; 

  Mer­cúrio, de elo­quên­cia sober­ana;

  Com três ros­tos, de­baxo vai Di­ana. 

  90 

  «Em to­dos estes orbes, difer­ente 

  Cur­so verás, nuns grave e noutros leve; 

  Ora fo­gem do Cen­tro longa­mente, 

  Ora da Ter­ra es­tão cam­in­ho breve, 

  Bem co­mo quis o Padre om­nipo­tente, 

  Que o fo­go fez e o ar, o ven­to e neve, 

  Os quais verás que jazem mais a den­tro 

  E tem co Mar a Ter­ra por seu cen­tro.

  91 

  «Neste cen­tro, pou­sa­da dos hu­manos, 

  Que não so­mente, ou­sa­dos, se con­tentam 

  De sofr­erem da ter­ra firme os danos, 

  Mas in­da o mar in­stá­bil ex­pri­men­tam, 

  Verás as várias partes, que os in­sanos 

  Mares di­vi­dem, onde se apousen­tam 

  Várias nações que man­dam vários Reis, 

  Vários cos­tumes seus e várias leis. 

  92 

  «Vês Eu­ropa Cristã, mais al­ta e clara 

  Que as out­ras em polí­cia e for­taleza. 

  Vês África, dos bens do mun­do avara, 

  In­cul­ta e to­da cheia de bruteza; 

  Co Cabo que até 'qui se vos ne­gara, 

  Que as­sen­tou pera o Aus­tro a Na­tureza. 

  Ol­ha es­sa ter­ra to­da, que se habi­ta 

  Dessa gente sem Lei, quási in­fini­ta. 

  93

  «Vê do Benomo­ta­pa o grande im­pério, 

  De selváti­ca gente, ne­gra e nua, 

  Onde Gonça­lo morte e vi­tupério 

  Pade­cerá, po­la Fé san­ta sua. 

  Nace por este in­cóg­ni­to Hemis­pério 

  O met­al por que mais a gente sua. 

  Vê que do la­do donde se der­ra­ma 

  O Ni­lo, tam­bém vin­do es­tá Cua­ma.

  94 

  "Ol­ha as casas dos ne­gros, co­mo es­tão 

  Sem por­tas, con­fi­ados, em seus nin­hos, 

  Na justiça re­al e de­fen­são 

  E na fi­del­idade dos viz­in­hos; 

  Ol­ha de­les a bru­ta mul­ti­dão, 

  Qual ban­do es­pes­so e ne­gro de es­torn­in­hos, 

  Com­bat­erá em So­fala a for­taleza, 

  Que de­fend­erá Nar­ra com de­streza. 

  95 

  «Ol­ha lá as alagoas donde o Ni­lo 

  Nace, que não sou­ber­am os anti­gos; 

  Vê-​lo re­ga, geran­do o crocodi­lo, 

  Os povos Abassis, de Cristo ami­gos; 

  Ol­ha co­mo sem muros (no­vo es­ti­lo) 

  Se de­fen­dem mil­hor dos in­imi­gos; 

  Vê Méroe, que il­ha foi de anti­ga fama, 

  Que ora dos nat­urais Nobá se chama. 

  96 

  «Nes­ta re­mo­ta ter­ra um fil­ho teu 

  Nas ar­mas con­tra os Tur­cos será claro; 

  Há-​de ser Dom Cristóv