 mar o seio faz en­tra­da; 

  Cidades out­ras mil, que vou pas­san­do. 

  A vós out­ros aqui se es­tão guardan­do. 

  107 

  «Vês corre a cos­ta céle­bre In­di­ana 

  Pera o Sul, até o Cabo Co­mori. 

  Já chama­do Cori, que Taprobana 

  (Que ora é Ceilão) de­fronte tem de si. 

  Por este mar a gente Lusi­tana. 

  Que com ar­mas virá de­spois de ti. 

  Terá vitórias, ter­ras e cidades. 

  Nas quais hão-​de viv­er muitas idades.

  108 

  «As provín­cias que en­tre um e o out­ro rio 

  Vês, com várias nações, são in­fini­tas: 

  Um reino Ma­hometa, out­ro Gen­tio. 

  A quem tem o Demónio leis es­critas. 

  Ol­ha que de Narsin­ga o sen­ho­rio 

  Tem as relíquias san­tas e ben­di­tas 

  Do cor­po de Tomé, barão sagra­do. 

  Que a Je­su Cristo teve a mão no la­do. 

  109 

  «Aqui a cidade foi que se chama­va 

  Meli­apor, fer­mosa, grande e ri­ca; 

  Os Ído­los anti­gos ado­ra­va, 

  Co­mo in­da ago­ra faz a gente in­ica. 

  Longe do mar naque­le tem­po es­ta­va, 

  Quan­do a Fé, que no mun­do se pub­ri­ca, 

  Tomé vin­ha pre­gan­do, e já pas­sara 

  Provín­cias mil do mun­do, que en­si­nara. 

  110 

  «Chega­do aqui, pre­gan­do e jun­to dan­do 

  A doentes saúde, a mor­tos vi­da, 

  Aca­so traz um dia o mar, va­gan­do, 

  Um lenho de grandeza desme­di­da. 

  De­se­ja o Rei, que an­da­va ed­if­ican­do, 

  Faz­er dele madeira; e não du­vi­da 

  Poder tirá-​lo a ter­ra, com pos­santes 

  Forças d' home­ns, de en­gen­hos, de al­ifantes. 

  111

  «Era tão grande o pe­so do madeiro 

  Que, só pera abalar-​se, na­da abas­ta; 

  Mas o nún­cio de Cristo ver­dadeiro 

  Menos tra­bal­ho em tal negó­cio gas­ta: 

  Ata o cordão que traz, por der­radeiro, 

  No tron­co, e facil­mente o le­va e ar­ras­ta 

  Pera onde faça um sump­tu­oso tem­plo 

  Que fi­cas­se aos fu­tur­os por ex­em­plo. 

  112 

  «Sabia bem que se com fé for­ma­da 

  Man­dar a um monte sur­do que se mo­va, 

  Que obe­de­cerá lo­go à voz sagra­da, 

  Que as­si lho en­si­nou Cristo e ele o pro­va. 

  A gente fi­cou dis­to alvo­raça­da; 

  Os Brâmenes o têm por cousa no­va; 

  Ven­do os mi­la­gres, ven­do a san­ti­dade, 

  Hão me­do de perder au­tori­dade.

  113

   «São estes sac­er­dotes dos Gen­tios 

  Em quem mais pen­etra­do tin­ha en­ve­ja; 

  Bus­cam maneiras mil, bus­cam desvios, 

  Com que Tomé não se ouça, ou mor­to se­ja. 

  O prin­ci­pal, que ao peito traz os fios, 

  Um ca­so hor­ren­do faz, que o mun­do ve­ja 

  Que in­imi­ga não há, tão du­ra e fera, 

  Co­mo a vir­tude fal­sa, da sin­cera. 

  114 

  «Um fil­ho próprio ma­ta, e lo­go acusa 

  De homicí­dio Tomé, que era in­ocente; 

  Dá fal­sas teste­munhas, co­mo se usa; 

  Con­denaram-​no a morte breve­mente. 

  O San­to, que não vê mil­hor es­cusa 

  Que apelar pera o Padre om­nipo­tente, 

  Quer, di­ante do Rei e dos sen­hores, 

  Que se faça um mi­la­gre dos maiores. 

  115 

  «O cor­po mor­to man­da ser trazi­do, 

  Que res[s]ucite e se­ja per­gun­ta­do 

  Quem foi seu mata­dor, e será cri­do 

  Por teste­munho, o seu, mais aprova­do. 

  Vi­ram to­dos o moço vi­vo, er­gui­do, 

  Em nome de Je­su cru­ci­fi­ca­do: 

  Dá graças a Tomé, que lhe deu vi­da, 

  E de­sco­bre seu pai ser homi­ci­da. 

  116 

  «Este mi­la­gre fez taman­ho es­pan­to 

  Que o Rei se ban­ha lo­go na água san­ta, 

  E muitos após ele; um bei­ja o man­to, 

  Out­ro lou­vor do Deus de Tomé can­ta. 

  Os Brâmenes se encher­am de ódio tan­to, 

  Com seu ve­neno os morde en­ve­ja tan­ta, 

  Que, per­suadin­do a is­so o po­vo rudo, 

  De­ter­mi