nam matá-​lo, em fim de tu­do. 

  117 

  «Um dia que pre­gan­do ao po­vo es­ta­va, 

  Fin­gi­ram en­tre a gente um ar­ruí­do. 

  (Já Cristo neste tem­po lhe or­de­na­va 

  Que, pade­cen­do, fos­se ao Céu subido); 

  A mul­ti­dão das pe­dras que voa­va 

  No San­to dá, já a tu­do ofer­eci­do; 

  Um dos maus, por far­tar-​se mais de­pres­sa, 

  Com crua lança o peito lhe atrav­es­sa. 

  118 

  «Choraram-​te, Tomé, o Gange e o In­do; 

  Chorou-​te to­da a ter­ra que pisas­te; 

  Mais te choram as al­mas que vestin­do 

  Se iam da san­ta Fé que lhe en­si­naste. 

  Mas os An­jos do Céu, can­tan­do e rindo, 

  Te re­cebem na glória que gan­haste. 

  Ped­imos-​te que a Deus aju­da peças 

  Com que os teus lusi­tanos fa­voreças. 

  119 

  «E vós out­ros que os nomes usurpais 

  De man­da­dos de Deus, co­mo Tomé, 

  Dizei: se sois man­da­dos, co­mo es­tais 

  Sem ird­es a pre­gar a san­ta Fé? 

  Ol­hai que, se sois Sal e vos danais 

  Na pá­tria, onde pro­fe­ta ninguém é, 

  Com que se sal­gar­ão em nos­sos dias 

  (In­fiéis deixo) tan­tas here­sias? 

  120 

  «Mas pas­so es­ta matéria perigosa 

  E tornemos à cos­ta de­bux­ada. 

  Já com es­ta cidade tão famosa 

  Se faz cur­va a Gangéti­ca en­sea­da; 

  Corre Narsin­ga, ri­ca e poderosa; 

  Corre Orixa, de roupas abas­ta­da; 

  No fun­do da en­sea­da, o ilus­tre rio 

  Ganges vem ao sal­ga­do sen­ho­rio; 

  121 

  «Ganges, no qual os seus habita­dores 

  Mor­rem ban­hados, ten­do por certeza 

  Que, in­da que se­jam grandes pecadores, 

  Es­ta água san­ta os la­va e dá pureza. 

  Vê Catigão, cidade das mil­hores 

  De Ben­gala provín­cia, que se preza 

  De abun­dante. Mas ol­ha que es­tá pos­ta 

  Pera o Aus­tro, daqui vi­ra­da, a cos­ta. 

  122 

  «Ol­ha o reino Ar­racão; ol­ha o as­sen­to 

  De Pegu, que já mon­stros povoaram, 

  Mon­stros fil­hos do feio ajun­ta­men­to 

  Dua mul­her e um cão, que sós se acharam. 

  Aqui soante arame no in­stru­men­to 

  Da ger­ação cos­tu­mam, o que us­aram 

  Por man­ha da Rain­ha que, in­ven­tan­do 

  Tal uso, deitou fo­ra o er­ror ne­fan­do.

  123 

  «Ol­ha lavai cidade, onde começa 

  De Sião largo o im­pério tão com­pri­do; 

  Tenas­sari, Quedá, que é só cabeça 

  Das que pi­men­ta ali têm pro­duzi­do. 

  Mais avante fareis que se con­heça 

  Mala­ca por em­pório en­no­bre­ci­do, 

  Onde to­da a provín­cia do mar grande 

  Suas mer­cado­rias ri­cas mande. 

  124

  «Dizem que des­ta ter­ra co as pos­santes 

  On­das o mar, en­tran­do, di­vid­iu 

  A no­bre il­ha Sama­tra, que já d' antes 

  Jun­tas am­bas a gente anti­ga viu. 

  Quer­son­eso foi di­ta; e das prestantes 

  Veias d' ouro que a ter­ra pro­duz­iu, 

  'Áurea' por epité­to lhe ajun­taram; 

  Al­guns que fos­se Ofir imag­inaram. 

  125 

  «Mas, na pon­ta da ter­ra, Cin­ga­pu­ra 

  Verás, onde o cam­in­ho às naus se es­tre­ita; 

  Daqui tor­nan­do a cos­ta à Cinosura, 

  Se en­cur­va e pera a Au­ro­ra se endi­re­ita. 

  Vês Pam, Patane, reinos, e a longu­ra 

  De Sião, que estes e out­ros mais su­jei­ta;

  Ol­ha o rio Menão, que se der­ra­ma 

  Do grande la­go que Chia­mai se chama. 

  126 

  «Vês neste grão ter­reno os difer­entes 

  Nomes de mil nações, nun­ca sabidas: 

  Os Laos, em ter­ra e número po­tentes; 

  Avás, Bramás, por ser­ras tão com­pri­das;

  Vê nos re­mo­tos montes out­ras gentes,

  Que Gueos se chamam, de sel­vages vi­das; 

  Hu­mana, carne comem, mas a sua 

  Pin­tam com fer­ro ar­dente, us­ança crua. 

  127 

  «Vês, pas­sa por Cam­bo­ja Mecom rio, 

  Que capitã