res. 

  37 

  Ela, por que não gaste o tem­po em vão, 

  Nos braços ten­do o fil­ho, con­fi­ada 

  Lhe diz: - «Ama­do fil­ho, em cu­ja mão 

  To­da min­ha potên­cia es­tá fun­da­da; 

  Fil­ho, em quem min­has forças sem­pre es­tão, 

  Tu, que as ar­mas Tifeias tens em na­da, 

  A so­cor­rer-​me a tua potes­tade 

  Me traz es­pe­cial ne­ces­si­dade. 3

  38 

  «Bem vês as Lusitâni­cas fadi­gas, 

  Que eu já de muito longe fa­voreço, 

  Porque das Par­cas sei, min­has ami­gas, 

  Que me hão-​de vener­ar e ter em preço. 

  E porque tan­to imi­tam as anti­gas 

  Obras de meus Ro­manos, me ofer­eço 

  A lhe dar tan­ta aju­da, em quan­to pos­so, 

  A quan­to se es­ten­der o poder nos­so.

  39 

  «E porque das in­sí­dias do odioso 

  Ba­co foram na Ín­dia mo­lesta­dos, 

  E das in­júrias sós do mar un­doso 

  Pud­er­am mais ser mor­tos que cansa­dos, 

  No mes­mo mar, que sem­pre temeroso 

  Lhe foi, quero que se­jam re­pou­sa­dos, 

  Toman­do aque­le prémio e doce glória 

  Do tra­bal­ho que faz clara a memória. 

  40

  «E pera is­so que­ria que, feri­das 

  As fil­has de Nereu no pon­to fun­do, 

  D' amor dos Lusi­tanos in­cen­di­das 

  Que vêm de de­sco­brir o no­vo mun­do, 

  To­das nua il­ha jun­tas e subidas, 

  (Il­ha que nas en­tran­has do pro­fun­do 

  Oceano terei apar­el­ha­da, 

  De dões de Flo­ra e Zé­firo ador­na­da); 

  41 

  «Ali, com mil re­fres­cos e man­jares, 

  Com vin­hos odor­ífer­os e rosas, 

  Em cristal­inos paços sin­gu­lares, 

  Fer­mosos leitos, e elas mais fer­mosas; 

  En­fim, com mil deleites não vul­gares, 

  Os es­perem as Nin­fas amorosas, 

  D' amor feri­das, pera lhe en­tre­garem 

  Quan­to de­las os ol­hos co­biçarem. 

  42 

  «Quero que ha­ja no reino Nep­tuni­no, 

  Onde eu nasci, progénie forte e bela; 

  E tome ex­em­plo o mun­do vil, mati­no, 

  Que con­tra tua potên­cia se re­bela, 

  Por que en­ten­dam que muro Adamanti­no 

  Nem triste hipocrisia val con­tra ela; 

  Mal haverá na ter­ra quem se guarde 

  Se teu fo­go imor­tal nas águas arde.» 

  43

  As­si Vénus propôs; e o fil­ho in­ico, 

  Pera lhe obe­de­cer, já se apercebe: 

  Man­da traz­er o ar­co ebúr­neo ri­co, 

  Onde as se­tas de pon­ta de ouro em­bebe. 

  Com gesto le­do a Cípria, e im­pu­di­co, 

  Den­tro no car­ro o fil­ho seu re­cebe; 

  A rédea larga às aves cu­jo can­to 

  A Fae­ton­teia morte chorou tan­to. 

  44

  Mas diz Cu­pi­do que era necessária 

  Ua famosa e céle­bre ter­ceira, 

  Que, pos­to que mil vezes lhe é con­trária, 

  Out­ras muitas a tem por com­pan­heira: 

  A Deusa Gi­gan­teia, temerária, 

  Jac­tante, men­tirosa e ver­dadeira, 

  Que com cem ol­hos vê, e, por onde voa, 

  O que vê, com mil bo­cas apre­goa. 

  45

  Vão-​a bus­car e man­dam-​a di­ante, 

  Que cel­ebran­do vá com tu­ba clara 

  Os lou­vores da gente nave­gante, 

  Mais do que nun­ca os d' out­rem cel­ebrara. 

  Já, mur­mu­ran­do, a Fama pen­etrante 

  Pelas fun­das cav­er­nas se es­pal­hara; 

  Fala ver­dade, havia por ver­dade, 

  Que jun­to a Deusa traz Credul­idade. 

  46 

  O lou­vor grande, o ru­mor ex­ce­lente, 

  No coração dos Deuses que in­di­na­dos 

  Foram por Ba­co con­tra a ilus­tre gente, 

  Mu­dan­do, os fez um pouco afeiçoa­dos. 

  O peito fem­inil, que lev­emente 

  Mu­da quais­quer propósi­tos toma­dos, 

  Já jul­ga por mau ze­lo e por crueza 

  De­se­jar mal a tan­ta for­taleza. 

  47

  De­spede nis­to o fero moço as se­tas, 

  Ua após out­ra: geme o mar cos tiros; 

  Di­re­itas pelas on­das in­qui­etas 

  Al­guas vão, e al­gua