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  Os dões que dá Pomona ali Natu­ra 

  Pro­duze, difer­entes nos sa­bores, 

  Sem ter ne­ces­si­dade de cul­tura, 

  Que sem ela se dão muito mil­hores: 

  As cerei­jas, pur­púreas na pin­tu­ra, 

  As amoras, que o nome têm de amores, 

  O po­mo que da pá­tria Pér­sia veio, 

  Mil­hor tor­na­do no ter­reno al­heio; 

  59

  Abre a romã, mostran­do a ru­bi­cun­da 

  Cor, com que tu, ru­bi, teu preço perdes; 

  En­tre os braços do ul­meiro es­tá a jo­cun­da 

  Vide, cuns ca­chos rox­os e out­ros verdes; 

  E vós, se na vos­sa ár­vore fe­cun­da, 

  Peras pi­ramidais, viv­er quis­erdes, 

  En­tre­gai-​vos ao dano que cos bi­cos 

  Em vós fazem os pás­saros in­icos. 

  60 

  Pois a tapeçaria bela e fi­na 

  Com que se co­bre o rús­ti­co ter­reno, 

  Faz ser a de Aque­mé­nia menos di­na, 

  Mas o som­brio vale mais ameno. 

  Ali a cabeça a flor Cifísia in­cli­na 

  Sôbo­lo tanque lú­ci­do e sereno; 

  Flo­rece o fil­ho e ne­to de Cini­ras, 

  Por quem tu, Deusa Pá­fia, in­da sus­pi­ras. 

  61 

  Pera jul­gar, difí­cil cousa fo­ra, 

  No céu ven­do e na ter­ra as mes­mas cores, 

  Se da­va às flo­res cor a bela Au­ro­ra, 

  Ou se lha dão a ela as be­las flo­res. 

  Pin­tan­do es­ta­va ali Zé­firo e Flo­ra 

  As vi­olas da cor dos amadores, 

  O lírio roxo, a fres­ca rosa bela, 

  Qual re­luze nas faces da donzela;

  62 

  A cân­di­da cecém, das matuti­nas 

  Lá­gri­mas ro­ci­ada, e a man­jerona; 

  Vêm-​se as le­tras nas flo­res Hiac­inti­nas, 

  Tão queri­das do fil­ho de La­tona. 

  Bem se enx­er­ga nos po­mos e bon­inas 

  Que com­petia Clóris com Pomona. 

  Pois, se as aves no ar can­tan­do voam, 

  Ale­gres an­imais o chão povoam. 

  63 

  Ao lon­go da água o níveo cisne can­ta; 

  Re­sponde-​lhe do ramo filomela; 

  Da som­bra de seus cornos não se es­pan­ta 

  Acteon n' água cristali­na e bela. 

  Aqui a fu­gace le­bre se lev­an­ta 

  Da es­pes­sa ma­ta, ou tími­da gazela; 

  Ali no bi­co traz ao caro nin­ho 

  O man­ti­men­to o leve pas­sar­in­ho. 

  64 

  Nes­ta fres­cu­ra tal de­sem­bar­cavam 

  Já das naus os se­gun­dos Arg­onau­tas, 

  Onde pela flo­res­ta se deix­avam 

  An­dar as be­las Deusas, co­mo in­cau­tas. 

  Al­gúas, do­ces cí­taras to­cavam; 

  Al­gúas, harpas e sono­ras frautas; 

  Out­ras, cos ar­cos de ouro, se fin­giam 

  Seguir os an­imais, que não seguiam. 

  65 

  As­si lho acon­sel­hara a mes­tra ex­per­ta: 

  Que an­dassem pe­los cam­pos es­pal­hadas; 

  Que, vista dos barões a pre­sa in­cer­ta, 

  Se fizessem primeiro de­se­jadas. 

  Al­gúas que na for­ma de­scober­ta 

  Do be­lo cor­po es­tavam con­fi­adas, 

  Pos­ta a ar­ti­fi­ciosa fer­mo­sura, 

  Nuas lavar se deix­am na água pu­ra. 

  66 

  Mas os fortes mance­bos, que na pra­ia 

  Pun­ham os pés, de ter­ra co­biçosos 

  (Que não há nen­hum de­les que não sa­ia), 

  De acharem caça agreste de­se­josos, 

  Não cuidam que, sem laço ou re­des, ca­ia 

  Caça naque­les montes deleitosos, 

  Tão suave, domés­ti­ca e ben­ina, 

  Qual feri­da lha tin­ha já Eric­ina. 

  67 

  Al­guns, que em es­pin­gar­das e nas bestas 

  Pera ferir os cer­vos, se fi­avam, 

  Pe­los som­brios matos e flo­restas 

  De­ter­mi­nada­mente se lançavam; 

  Out­ros, nas som­bras, que de as al­tas ses­tas 

  De­fen­dem a ver­du­ra, passeavam 

  Ao lon­go da água, que, suave e que­da, 

  Por al­vas pe­dras corre à pra­ia le­da.

  68

  Começam de enx­er­gar subita­mente, 

  Por en­tre verdes ramos, várias cores, 

  Cores de quem a vista jul­ga e sente 

  Que não er­am das rosas ou 