o 

  Mas da Am­brósia, que Jove tan­to es­ti­ma 

  Com to­do o ajun­ta­men­to sem­piter­no, 

  Nos va­sos, onde em vão tra­bal­ha a li­ma, 

  Cres­pas es­cumas er­guem, que no in­ter­no 

  Coração movem súbi­ta ale­gria, 

  Saltan­do co a mis­tu­ra d' água fria. 

  5 

  Mil práti­cas ale­gres se to­cavam; 

  Risos do­ces, sutis e argutos di­tos, 

  Que en­tre um e out­ro man­jar se al­evan­tavam, 

  Des­per­tan­do os ale­gres apeti­tos; 

  Músi­cos in­stru­men­tos não fal­tavam 

  (Quais, no pro­fun­do Reino, os nus es­pri­tos 

  Fiz­er­am des­cansar da eter­na pe­na) 

  Cua voz dua angéli­ca Sire­na. 

  6 

  Can­ta­va a bela Nin­fa, e cos acen­tos, 

  Que pe­los al­tos paços vão soan­do, 

  Em con­sonân­cia igual, os in­stu­men­tos 

  Suaves vêm a um tem­po con­for­man­do. 

  Um súbito silên­cio en­freia os ven­tos 

  E faz ir do­ce­mente mur­mu­ran­do 

  As águas, e nas casas nat­urais 

  Adorme­cer os bru­tos an­imais. 

  7 

  Com doce voz es­tá subindo ao Céu 

  Al­tos varões que es­tão por vir ao mun­do, 

  Cu­jas claras Ideias viu Pro­teu 

  Num globo vão, diá­fano, ro­tun­do, 

  Que Júpiter em dom lho con­cedeu 

  Em son­hos, e de­spois no Reino fun­do, 

  Vatic­inan­do, o disse, e na memória 

  Recol­heu lo­go a Nin­fa a clara história. 

  8

  Matéria é de co­turno, e não de so­co, 

  A que a Nin­fa apren­deu no imen­so la­go; 

  Qual Iopas não soube, ou De­mod­oco, 

  En­tre os Feaces um, out­ro em Carta­go. 

  Aqui, min­ha Calíope, te in­vo­co 

  Neste tra­bal­ho ex­tremo, por que em pa­go 

  Me tornes do que es­cre­vo, e em vão pre­tendo, 

  O gos­to de es­cr­ev­er, que vou per­den­do. 

  9 

  Vão os anos de­cen­do, e já do Es­tio 

  Há pouco que pas­sar até o Ou­tono; 

  A For­tu­na me faz o en­gen­ho frio, 

  Do qual já não me jac­to nem me abono; 

  Os des­gos­tos me vão levan­do ao rio 

  Do ne­gro es­quec­imen­to e eter­no sono. 

  Mas tu me dá que cumpra, ó grão rain­ha 

  Das Musas, co que quero à nação min­ha!

  10 

  Can­ta­va a bela Deusa que viri­am 

  Do Tejo, pe­lo mar que o Gama abri­ra, 

  Ar­madas que as ribeiras vence­ri­am 

  Por onde o Oceano Índi­co sus­pi­ra; 

  E que os Gen­tios Reis que não dari­am 

  A cerviz sua ao ju­go, o fer­ro e ira 

  Provari­am do braço duro e forte, 

  Até ren­der-​se a ele ou lo­go à morte. 

  11 

  Can­ta­va dum que tem nos Mal­abares 

  Do sumo sac­erdó­cio a dig­nidade, 

  Que, só por não que­brar cos sin­gu­lares 

  Barões os nós que de­ra d' amizade, 

  Sofr­erá suas cidades e lu­gares, 

  Com fer­ro, in­cên­dios, ira e cru­el­dade, 

  Ver de­stru­ir do Samor­im po­tente, 

  Que tais ódios terá co a no­va gente. 

  12 

  E can­ta co­mo lá se em­bar­caria 

  Em Belém o remé­dio deste dano, 

  Sem saber o que em si ao mar traria, 

  O grão Pacheco, Aquiles Lusi­tano. 

  O pe­so sen­tirão, quan­do en­traria, 

  O cur­vo lenho e o férvi­do Oceano, 

  Quan­do mais n' água os tron­cos que gemerem 

  Con­tra sua na­tureza se me­terem. 

  13

  Mas, já chega­do aos fins Ori­en­tais 

  E deix­ado em aju­da do gen­tio 

  Rei de Cochim, com poucos nat­urais, 

  Nos braços do sal­ga­do e cur­vo rio 

  Des­baratará os Naires in­fer­nais 

  No pas­so Cam­balão, tor­nan­do frio 

  D' es­pan­to o ar­dor imen­so do Ori­ente, 

  Que verá tan­to obrar tão pou­ca gente.

  14 

  Chamará o Samor­im mais gente no­va; 

  Virão Reis [de] Bipur e de Tanor, 

  Das ser­ras de Narsin­ga, que al­ta pro­va 

  Es­tarão prom­etendo a seu sen­hor; 

  Fará que to­do o Naire, en­fim, se mo­va 

  Que en