Title: Laços de Família
Author: Ruy Sant'Elmo
CreationDate: Mon Jul 13 11:20:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Jan 14 22:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Laços de Família

  Ruy Sant’El­mo

  Laços de Família foi ex­traí­do do livro Chi­na, País da Angús­tia.

  © 1996, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-72-3

  Lis­boa, Janeiro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  LAÇOS DE FAMÍLIA

  No seu tan­car, exígua em­bar­cação de tábuas toscas, onde não cabia um homem deita­do ao com­pri­do, ar­ro­jaram-​se os dois nesse dia, Fong-​Tai-​Chac e Fong-​Ngui-​Chac, ao mar largo. Em ger­al, in­fil­travam-​se pe­lo labir­in­to dos canais, em que se di­vide a foz do rio de Oeste, onde o peixe abun­da, um peixe mole e sa­lo­bro, al­imen­ta­do pe­lo ri­co nateiro dos deltas. Mas, nesse dia, me­ter­am-​se pe­lo mar den­tro. O seu en­gen­ho levara-​os a trans­for­mar o tan­car, frágil em­bar­cação a re­mos, nu­ma em­bar­cação à vela, sus­penden­do dum bam­bu uma es­teira de olas en­tre­laçadas. E, mane­jan­do-​as por es­co­tas de fil­amen­tos de palmeira re­tor­ci­dos, o bar­co cor­ria ao fio do ven­to, veloz e alígero, de proa er­gui­da.

  Afeitos às lides do mar, ja­mais uma bor­ras­ca ou out­ra in­tem­périe os sur­preen­deu de­spre­venidos. Saben­do ler os prenún­cios do tem­po, com larga an­te­cedên­cia, refu­giavam-​se pru­den­te­mente em por­to-​abri­go.

  Mas, nesse dia, os dois ra­pazes, com ven­to de feição, afas­taram-​se mais da cos­ta. Não es­ta­va se­guro o tem­po. Na em­briaguez da cor­ri­da, à deri­va do ven­to, nem repararam que o céu, para o la­do do poente, começa­va a tin­gir-​se du­ma cor de co­bre em brasa, ao pas­so que o ven­to ia afrouxan­do. Lançaram as re­des à água. O peixe afluía com uma abundân­cia inusi­ta­da. Nun­ca co­mo en­tão fo­ra tão pródi­go o mar! O peixe pas­sa­va aos car­dumes, co­mo quem vai de fugi­da, e pre­cip­ita­va-​se às ce­gas na rede.

  Ces­sara por com­ple­to o ven­to. Os ra­pazes, en­treti­dos a pescar, não de­ram por que a luz aver­mel­ha­va, de mais em mais, dos la­dos do poente, e que o ar se ia tor­nan­do atabafante, rar­efeito, opres­si­vo. Lançavam as re­des ao mar, e de segui­da as lev­an­tavam, abar­ro­tadas de peixe. De fugi­da, o peixe seguia aos car­dumes, de noroeste para sud­este. Mas começou a rarear. Ago­ra só um ou out­ro, tres­mal­ha­do, pas­sa­va aos ziguezagues. A maré tin­ha subido, e a água con­ser­vara-​se em preia-​mar nu­ma qui­etude de mar chão. De súbito, os ra­pazes er­guer­am os ol­hos. O mar era um plaino de lama aver­mel­ha­da. No céu baço, azul-​fos­co, tiran­do a cin­za, blo­cos de nu­vens so­bre­postas de­com­pun­ham os raios froux­os do poente em ir­ra­di­ações es­pec­trais dum tom alaran­ja­do. Não bo­lia a mais leve aragem. O ar era so­turno…so­turno… 

  -Tufão…!?

  Ao longe, pas­savam em­bar­cações aproadas a ter­ra, pi­can­do os re­mos com força. Não havia pon­ta de ven­to. Treina­dos na lide do mar, os ra­pazes col­her­am as re­des num pron­to, vi­raram por vante, e fiz­er­am-​se com ru­mo a ter­ra. O Sol en­co­bri­ra-​se, afo­ga­do em nu­vens. E to­da a gama, ver­mel­ho-​laran­ja, da luz, des­bo­tara para uma cor de cin­za, azul-​cin­za. En­tre­tan­to o ar era ca­da vez mais quente, atabafante, opres­si­vo. Sente-​se que a pressão au­men­ta de mais em mais, e tende a ex­plodir. An­da no ar uma pra­ga de in­sec­tos miú­dos que vêm não se sabe de onde, em voe­jos es­car­men­ta­dos. Não havia pon­ta de ven­to; e, no en­tan­to, o mar começa­va a ag­itar-​se, ner­voso, in­qui­eto. E vai crescen­do de mais em mais. En­grossa e acarneira, e on­du­la em on­du­laç